terça-feira, 14 de outubro de 2008

PUTEIRO


Ali e ali
No grisalho dos olhos
Na lágrima
Onde se conectam a fala e as outras intenções
As resoluções da pobreza humana
E as soluções prospectadas
A massa sonolenta
Malditos marqueteiros
Malditos sonolentos
Não enxergam que é tudo mentira
Bem ali
Na musiquinha que nos visita a cada quatro anos
Fantoches vampirescos e suas três mães putas
A mídia
Essa justiça moribunda
A falta de vergonha
E passeamos ledos por essa merda toda
Tendo que escolher um desses filhos da puta

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

ESCORREU


Passeia agora
Um barulho de tênis amolando sua sola
Um silêncio que perturba aquilo que não se acorda
E depois vai deitar
Me esquecer num canto qualquer da casa

Quando, de olhar o mundo, eu fiquei entediado
O coração morno batendo travado
Foi você aos meus olhos se mostrar
E quando estes ao coração te apontaram
De entediado ficou folião
E se mostrou feito o sorriso do sol
Num primeiro dia de verão

Mas passeia
E agora?
O desespero se afoga
Na louça que a gente lava quando chega a tarde
E no reflexo isso que me indaga
Será que foi só a água que escorreu e foi embora?

terça-feira, 30 de setembro de 2008

DIFÍCIL

Num filme
Num ponto de ônibus
Na conversa do pai
Nas costas que se distanciam dizendo olá quando alguém se vai
O difícil de ser gente é perdoar
Perdoar os outros
Perdoar os bolos
Os bobos
O difícil de ser gente é perdoar a gente
E seguir pra lá
Pra lá

Num botequim
Num escritório
No sermão do padre
No vazio que ocupa o espaço de alguém que não vai voltar
O difícil de ser gente é perdoar
Perdoar os tombos
Perdoar o jeito
Os medrosos
O difícil de ser gente é perdoar a gente
E seguir pra lá
Pra lá
É ver o que achamos que é nosso se afastar
E erguermos o braço acenando boa viagem

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

UM POUQUINHO




Sabe? Um pouquinho...
Quase um tanto pra aparecer por aí com a cara exposta
Um tanto de uma alegria plástica... as linhas do riso
Sem gosto eu sei... mas só um pouquinho
Quase um tanto
E de tanto ser um quase a gente acredita
Um pouquinho
Um tiquinho
Que tudo era de verdade entre o começo e o fim do beijo

...ALGUÉM DANÇAVA


Foi lá na Olido, na avenida São João...
Fui pra encontrar o Glau e, antes de percebê-lo por lá, um som me cumprimentou primeiro. Eu não sabia... gente se movendo num ar morno de tanto usado.
Quando vi, de surpresa, estava lá rodopiando em volta do meu corpo... não as pessoas que se sacudiam mas o som.
Música... o comprimido que me faz agüentar todas as besteiras que espalhamos pelo mundo.
A saída que eu pego pra seguir na contra mão disso tudo e agüentar esse planeta.
E eu sou um dançarino... me acabo de dançar. Não com o corpo mas com o peito.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

ADORMECIDO

E de sonhar a vida que me adormece toda manhã
Caminhando
Um zumbi dopado
Ganhei esta cara próspera
Enlatada e pálida
Rotulada nesse grande supermercado
Um tantinho de riso
Permitido e ensaiado
A imaginação de asas cansadas
E sapato apertado
A boca cerrada
A palavra rígida na frase serrada
Vertendo:
_Sim
_Não
_Gosto
_Não gosto
_Estou ocupado

E de acordar o sonho que me reanima do calabouço
Cidade esquecida
Uma ciranda de luzes
Uma avalanche de risos
Ganho a alma desinibida
E é esta que vê e sopra em tua boca
A tua alma de volta

terça-feira, 15 de julho de 2008

ME ESQUECE

Vai
Diz que vai agora
Diz que já me olhou por dentro e por fora
Vai tristeza, me esquece
Deixa meu peito emergir da fumaça
Findar a febre de insônia
Do choro
Do tempo escuro
Da cachaça
Vai

Vai
Diz que nem mais demora
Diz que já cansou fazer-me de tua casa
Agora
Leva teu gosto de beijo no espelho
Tua mágica de fazer da minha calçada
Quebradiça
Lamacenta
Um pedaço de um nada
Vai

Mas antes de virar a esquina
Olha pra trás
Pra ver que de sorrir eu não esqueci
De sorrir eu não esqueci
De chorar de rir eu não esqueci
De sonhar de rir eu não esqueci
De guarda um rir eu não esqueci
E guardei bem quietinho para o teu adeus

sexta-feira, 11 de julho de 2008

NÃO FALA DE SUJEIRA

Não fala de sujeira
Você é de lavar a palavra e botar talquinho
De escolher a cor que cai certinho para o xale
É viciada no espelho vertical do teu armário
Mas diz que não liga... não liga
Não fala de sujeira
Enquanto pisa na calçada do teu condomínio
Enquanto na hora de caminhar ensaia um desfile
Não fala de sujeira
Se o banheiro do teu boteco cheira eucalipto
Se pra cada gota de pinga que desce a tua boca diz que foi um litro
Se você pede pelo número cinco
Se você dorme na rua pra dizer que é bonito
Então, puta merda
Não fala de sujeira
Que de sujeira você só conhece as letrinhas

terça-feira, 8 de julho de 2008

PRA PASSEAR COM VOCÊ

Esperam que eu não seja o que sou
Que eu minta
E finja que o sol tem sempre a mesma cor
E que eu veja amor num rótulo de perfume

Esperam que eu não seja o que sou
Que eu sinta a diferença
Mas diga que a chuva sempre cai igual
Que é uma bobagem pensar que os olhos sabem falar

Mas sou assim
A única coisa boa que sei fazer é sonhar
Não me custa dinheiro
Não aparece no jornal
Não pede que eu domine ninguém além de mim mesmo

E pra ficar por perto por um tempo eu inventei outra pessoa
Eu tranquei a criança que ria
E apresentei um homem sério e amargo
Então meu peito ficou tímido e educado
Batendo sem trovejar
Morto
Um zumbi
Eu repetia bom dia

Esperam que eu não seja o que sou
A nuvem pede ao sol pra parar de brilhar?
Então não posso fingir pra passear com você

quarta-feira, 2 de julho de 2008

QUASE


Nem te falo
Nem te levo
Nem te conto
Nem te peço
Nem te nego
O que você leva em teu bolso
E te cato
Bem
E bem gostoso