quinta-feira, 9 de março de 2017

O eco contrário

Estica as mãos pois sente medo de não ter nada
A árvore da porcaria imaculada
Amoras de estanho
Amoras
Aranhas
Veneno
A gente toda se debatendo


A teia do homem é ele mesmo
A teia do homem é ele mesmo


Você no fundo sabe
Gasolina adulterada
Felicidade adulterada
Qual é a verdade inventada pra esta semana?
A dor é insana
Mas a gana vale teu sono
E uma foto sorrindo no jornal


Estica os goles pois sente medo de não sentir nada
O conta-gotas de caráter
Amores de estanho
Amores
Roedores
Veneno
A gente toda se debatendo


A minha febre está fora de moda
A minha febre está fora de moda


Você no fundo afoga
Gasolina adulterada
A vida adulterada
Qual é a desculpa profetizada pra esta semana?
A dor é insana
Mas dropei de alma noutro rolé
Você não quer porque não vê
A febre
A febre… a febre

sábado, 4 de março de 2017

A quarta e as cinzas

Eu mergulho meu tempo nesse terno cinzento
E me apego ao que possuo e que já perco
O pranto da vela endurecida nos meus dedos
A febre do som
Do vento
A taquara que não mais me atrai com algum segredo
As mordaças que tanto rompi
Ali
Estiradas no asfalto soturno
Banhadas pela lua
Veladas pelo sino rouco da mesma igreja


Eu mergulho meu tempo num café amargo
E arremesso meu corpo para as costas do jornal velho
O riso tolo engarrafado no atual silêncio
As noites de vida
De luz
A lembrança descabida que perturba o sono covarde
As janelas que eu perturbava
Aqui
Fechadas para todo o sempre
Lacradas por nós mesmos
Quando erroneamente pensamos que a vida não guardava mais segredos

domingo, 19 de fevereiro de 2017

A estação das novenas

Teus olhos devoram o mundo
Teu sonho engole tudo
Eu sei quem é você
Eu sofro do teu abandono

Teu choro aquieta o mundo
Teu riso perfuma a casa
Eu sei do teu sono aflito
Eu sei do teu febril juízo

Cantiga na rua e você se arruma
Estanca a tristeza no rosto da lua
Me diz quando eu vou embora
Quantas vidas demora... pra eu te acompanhar de novo?

Meus olhos destroem o mundo
Meu sono é um alçapão fundo
Você conhece minha alma
Você me ensina com calma

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Certezas

Eu sei que te irrito
Mas é você quem se engasga comigo
Não sou adepto do teu paraíso
Meu monstro não tem o hálito dos teus bons meninos

Ele mastiga as mentiras que você tanto valoriza
Ele estraga a sua brincadeira
E você fica fodido

Eu sei que te irrito
Mas é você quem tenta brincar comigo
Não me interessa o dono da bola
Meu fantasma te traz calafrios quando te faz uma visita

Ele assombra a consciência que você tanto blinda
Ele estraga tua paisagem bonita
E você fica fodido

Mas te deixo aqui uma dica
Sabe, não importa o rótulo onde você se agarra
Na minha e na sua estrada
A derradeira certeza é que não sabemos de nada

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Cruz

Vá dormir agora
Escape sem medo daqui
O tempo é só um véu que iremos arrancar dos nossos olhos um dia
Juntos... solitariamente unidos

Vá agora
Estampe um sorriso no rosto
Eu preciso saber que mesmo errando tanto eu ainda te faço feliz
Triste... estranhamente bonito

Vá agora
Guarde para o meu nome um castigo
E me mostre a cruz que eu não pude evitar no teu pulso esquerdo
E eu vou chorar...
E eu vou sentir de novo tudo aquilo que você pensa que eu não sinto

Vá dormir agora
Me abençoe com um pensamento
E me perdoe
Eu sou a criança que ainda não entendo


terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Parabéns

Pegue a sua poesia de chazinho das cinco
Vista-a com a roupinha da estação
Acomode essa titiquinha na poltrona
Chame a tchurma
E fiquem assim...

Com carinha de merda por mais duas décadas... Puta que pariu!

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Pijama

A madrugada veste seu pijama
As luzes dormem nas sacadas
Na xícara o café e a hora atrasada
Na cidade o silêncio se deita na calçada
Na cidade o silêncio se deita na calçada

A madrugada veste seu pijama
As saudades repousam no peito
No papel uma verdade não contada
O amor bêbado já derrete pela cama
O amor bêbado já derrete pela cama

E eu testemunha de tudo isso
Abro meu sorriso pra aquele resto de lua
Meu sono já chegou da rua
Meu sono já chegou da rua

A madrugada veste seu pijama
A música boa já ronca numa boa
Naquele balcão só a poeira se amontoa
A solidão não escolhe pessoa

A solidão não escolhe pessoa

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Na porta da sua casa

Quando eu te busquei não sabia o que eu procurava
Queria o riso
Queria a espera
Queria o pedaço meu que me faltava

Quando eu te busquei minha alma estava confusa
Queria o berro
Queria o sono
Queria ouvir New Order outra vez na porta da sua casa

Me evita agora tão dona de si
Toda irritada
Zóinho de esmeralda
Zóinho de esmeralda

Me aperta agora tão dona de tudo
Toda dedicada
Zóinho de esmeralda
Zóinho de esmeralda
Vãobora pra casa

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Explicando

Não me peça a falsa euforia do salão
Se quando eu chorava verdadeiramente você nem me dava a mão

Não me obrigue ao fácil grito de campeão
Se na derrota você banhava em naftalina o seu brasão

Meu riso é meu
Não teu
É ordem do meu coração

Meu grito é meu
Não teu
É ordem do meu coração

Não me peça uma frase pouco viril
Se num poema doce e qualquer minha alma você nem viu

Não me peça o afago de uma fotografia
Se atrás das luzes um carinho seu nunca existia

É meu
Meu jeito é meu
É a força do meu coração

É meu
Meu jeito é meu
Eu não lhe devo nenhuma explicação

segunda-feira, 18 de julho de 2016

É CEDO AINDA

Hoje enfim tomei a decisão
Depois de tanto tranco, gole seco e bituca no escuro
Fui franco
Despedi meu coração
Hoje enfim peguei minha contramão
Quando desumana a noite caiu sobre o meu peito
Fui pra minha cama
Não saí com a solidão
E quando ouço as linhas bêbadas de um poema
Digo sem pena:
Quero mais não
Quero mais não
E quando ouço as notas loucas de uma canção
Digo sem pena:
Não canto mais não
Não canto mais não
Hoje por fim você me disse não
Veio a noite e te chamei pra sair por esse mundo
Fez cara de açoite
Não segurou na minha mão
Amanhã você recobra minha razão
Eu bato forte e você dá a sua cara pra bater
Pede-me um norte
Te faço chorar
Te faço rir
Sou só um louco coração
Sou só o teu coração
E quando a música calar num boteco da vida
Dirá sem medo:
É cedo ainda
É cedo ainda
E quando minha voz te apertar antes do dia
Rabiscará numa esquina:
É tanto que tenho que não cabe apertado aqui comigo