quinta-feira, 25 de julho de 2013

Transbordado

Sabe isso?
A métrica academicamente permitida
A gente vestida de santo antes mesmo de um milagre
A frase pronta e desinfetada
Politica e falsamente correta

A celebridade instantânea e oca
A música intelectualizada e fedida
Que senta sobre o seu rabo sem sair da toca
A música prostituída e cheia da grana
Que arrebata a burrice tão em alta

Sabe isso?
Que causa ânsia aos meus olhos
Que causa enxaqueca aos meus ouvidos
Sabe?

A Pinacoteca e seus fantasmas soberbos
A foto da bunda daquela
Que parece aquela que parece a outra
Que parece a louca vontade por qualquer tolo clique
O ibope
O hit
Tanta erudição

Tão pouca alma

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Respiração

Havia uma garota que chamava a minha atenção. Eu a perseguia com meus olhos timidamente quando ela aparecia pelo meu boteco preferido. Ela tinha algo singular. Sim, é algo simples de se dizer sobre qualquer desconhecido, mas ela realmente tinha.
Eu não fazia idéia do que era. Não era tesão ou apreciação por um padrão de beleza.
Certa vez, numa das noites por lá, alguém disse que a cerveja não estava devidamente gelada. Ela fez então uma cara: A cerveja está como deve ser.
Lembrei então imediatamente de minha avó. Era isso. Minha avó sempre teve um humor simples e forte. Era uma força encantadora, algo que eu vi em pouquíssimas mulheres. Ela tinha aquilo. Enfim.
Eu do alto de umas oito cervejas resolvi fazer um elogio: Você sabia que me lembra a minha avó?
Ela então mudou de rosto. Fez uma cara de ofendida e aquilo que eu admirava desapareceu.
É foda. O primeiro quintal que as palavras habitam, quando alguém despenca da boca o que pensa sem respirar numa pausa, é o quintal dos absurdos. O mais foda é que pode ser um absurdo lindo ou um absurdo tenebroso.
Ela ficou puta, imaginando que eu estava destilando algum tipo de piada.

Eu estava bêbado demais e falei tudo rápido demais. Acho que eu não esperei a razão que viria depois de uma simples respiração.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Tão Longe

Eu vi de perto
Eu estava tão longe
Aquela gente tosca
Aquela procissão triste e turva


Sabiam da letra mas não da alma da canção
Cuspiam sorridentes o discurso pronto
E os dentes branqueados na clínica
E a etiqueta das roupas rasgadas


Juravam uma única felicidade absoluta
Mostravam com orgulho sua própria prisão
E o riso era pautado no tom da moda
E o amor tinha preço e tamanho


Vi que então secavam o rosto
Apontavam neles uma lágrima púrpura
E não entendiam de nada
Da lágrima
Do gosto de sal
A possibilidade do novo era pra eles uma dor absurda


Eu vi
Eu que era o triste
O que não pertencia à sala alguma
Eu já em outra parada
Chorei de alívio
Eu estava tão longe

Sei Não

Uma vez
Sei não
Sabe?
Sabe onde o beijo é menos ácido e mais irmão?

Uma vez eu vi meu pai jogando futebol
Uma vez eu ouvi o Toquinho tocando violão
Abri a janela porque a chuva era bonita
Abri meu peito porque a moça era bonita

Uma vez eu vi o sol apagar em pleno dia
Uma vez eu tomei café sem pressa alguma
Fiquei quieto e a casa estava vazia
Fiz barulho pra noite não me abandonar

Sei não
Sabe?
Sabe onde o sono é mais breve que uma ilusão?

Uma vez eu tomei conhaque antes da escola
Uma vez estava frio e eram dois sob o colchão
No coreto da praça dormia o Tobias
A ferrugem ficava tão bonita no portão

Uma vez o piano tinha cheiro de fantasmas
Uma vez os sonhos pingavam do meu suor
Vi a diáspora das formigas na cozinha
Vi a menina que fingia que não me via

Sei não
Sabe?

Sabe como é ser adulto e ter uma criança no coração?

terça-feira, 25 de junho de 2013

O Velar


Quando todos partiram e nenhum abraço sobrou
Quando a luz brandou e o cheiro das velas perfumou a praça
Achou enfim graça de si mesmo
Descobrindo que viver tem seu malabarismo
E que a saudade é deselegante e justa
Se o amor some de uma hora pra outra
Se o amor se desdobra noutra dimensão...
E a gente fica com cara de besta olhando o horizonte
Como quem espera os créditos ao final de um filme

Quando todos partiram e nenhum consolo educado atrapalhou
Ele pôde chorar desengonçado e tolo
Ele pôde conquistar o próprio perdão

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Raso


E se na esquina do bairro

Eu fosse uma buzina de luz
Eu fosse a meretriz e fosse o perdão
O riso destrancado e vivo
A ferrugem a comer o cadeado
O coração arremessado pela janela
Caíndo no colo dessa coisa bela que uns chamam de abuso
E minha falta de sono chama de liberdade

E se no escombro de mim
Eu fosse a vontade de muitos
Eu fosse a ruptura e a comunhão
O brilho refeito nos olhos
A frase com cheiro de sábado
O amor que eu pego e eu largo no raso
Pois ainda não vejo o fim do meu fundo

terça-feira, 11 de junho de 2013

O Quintal de Lavínia

Inventa
Inventa, teima e inventa
Rabisca colorido
Bebe água apressada
Fica calada

Amigo invisível
Passeia pelos olhos
Sorri calada

Inventa
Inventa, teima e inventa
Porta escancarada
Água do chuveiro
Outro planeta

Amigo invisível
Cinema dentro dos olhos
Sorri calada

Lavínia passei pela vida onde o tempo não manda nada
Sua alma não tem horário
É forte o quanto é bela
Explica o universo usando um outro vocabulário

Seu vocabulário

sexta-feira, 7 de junho de 2013

EDUCAÇÃO


A casa já dorme
Deixa de medo
Eu vim te ver, te buscar
Levar teu ser por aí tendo o teu peito como mar

A cidade já ronca
Esquece da hora
Vamos pra lá, vamos embora
Lá onde a alma sabe que pode rir e chorar

Veja bem, que falta faz eu te ver
Não esse aí
Não esse espelho travestido de você
Mas você
Você que há um tempo se guardou de tudo
E pra quê?

A garoa já deita
Deixa de dúvida
Faz tua mala, tua prece
Essa luz que cresce no papel que você rabisca

A cidade levanta
O amor dorme
A cidade vomita os segundos do relógio sobre os automóveis

A cidade levanta
A cidade levanta
O amor finge que te esquece por educação
E você continua firme e forte

segunda-feira, 27 de maio de 2013

COMO FICA?


Doutor me falou de uma pílula porreta

Que faz até Deus tirar soneca com a Vinte e Três lotada
Eu bem que penso em me valer dessa pequena
Visto que toda a gente me aponta o dedo: Esse aí se acabou na madrugada!
Mas se eu durmo como fica todo o resto?
As estrelas e os botecos
A morena e os olhos ávidos
O coro dos bêbados irresistíveis
As piadas alcoólicas
As risadas sem sentido e tão vivas
O abraço cambaleante dos amigos
As paixões de uma noite
A noite tão comprida
A garoa e a minha saudade?
O coração pelado pelos ares
Como fica a possibilidade de que o meu amor venha me buscar?
Com cara de poucos amigos
Mulher de frases ardidas
Puta comigo
E doida pra me tirar dos braços do mundo onde eu existo
Como fica?

quinta-feira, 2 de maio de 2013

A Alma, a Saudade e o Mar


O Mar eu olho

De manhã ou no fim de tarde
Ou qualquer outra hora
Basta o tempo deixar
A Saudade é assim
Basta a minha Alma mandar

O Mar termina lá onde começa a Saudade
A Saudade faz com que eu queira ver o Mar

A minha Alma some
Noutras vezes a minha Alma acorda de mim
Inflamada de Saudade
A Alma é fogo
Me faz entrar no Mar
E assim, da Saudade eu me molhar

A Saudade eu sinto
De manhã ou na fila do banco
Ou nos olhos de alguém
Então a minha Alma dança
E faz sua alquimia
Transforma a Saudade num imenso Mar