quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Um Curta

Havia uma janela
O meu reflexo tristonho
O choro bobo
Porra, há um buraco nessa lágrima
De onde escorre a minha alma
De onde cai a alegria que ponho de castigo
De onde eu me nego pra quem talvez me ame

E assim, talvez
Talvez o medo
Talvez o resto do barato
Do rolé na minha velha bicicleta
Da ressaca da década de oitenta
Talvez só a falta de saco pras bobagens importantes

Mas desta merda vem o discurso
Vem o aerosol colorido nos olhos abobalhados
Qualquer besteirol cuspido numa novela
É osso
É o poço onde se atola essa gente toda

Quando choro sou um pobre solitário
Quando rio sou um cachorro filho da puta
Eita mundinho que só curte um curta

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Gargalhada

E quando é assim?
Quando foi ontem e já amanhã
Agora
Lá depois do tombo
Do beijo
Do primeiro trinco no coração

Depois de um amor quebrado
De um amigo que partiu
Dos pais distantes
Do assalto legalizado
Da solidão
Esse rolo compressor que usamos pra pavimentar a modernidade

E quando é depois?
Onde é algo bobo
Uma piada
Uma mentira engraçada
Ou o seu nome noutra boca com carinho
E quando é assim?
A explosão que te alivia
Essa bomba do caralho chamada gargalhada

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Tosse

Sabe uma tosse?
Daquelas que você guarda por anos
Que você segura sem perceber
Pois não há tempo
Enquanto você chora
Enquanto você se encolhe amiúde
Por uma saudade inicialmente clara
Por uma culpa inicialmente justa
Duas putas que zombam da tua cara
Enquanto te roubam a alma
Sabe uma tosse?
É feito isso
Feito o foda-se que eu te dou agora

Eu Confesso

Já que você me pede eu confesso
Que não posso mais sorrir sem peso
Que não posso mais andar alegre
Que não sei sonhar um verso
Que não gosto de dormir tarde


Que não tenho mais vontade
Que não tenho mais amigos
Eu não olho mais a lua
Eu não gosto mais do carnaval


Já que você me pede eu entrego
Que não quero mais ir pro boteco
Que não quero mais ouvir piada
Que não gosto mais de pipoca
Que não toco mais minha guitarra depois que você me esqueceu

Que eu não quero mais um amor breve
Ou eterno
Ou terno ou fogo ou febre
Ah, qualquer barbaridade que te deixe feliz

Já que você me enche o saco eu invento qualquer bobagem
E assim você tem na testa o teu troféu
E eu tenho pressa
Pois lá onde o caldo do som engrossa o povo me espera
Lá onde o caldo do som engrossa o povo me espera

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O Jogo

Eu teimo no jogo mas me canso
Pois o jogo é bobo
Pois o jogo é óbvio
O jogo não põe na rua o carnaval que existe no meu peito
Eu teimo
Mas o jogo teima em ser só um jogo

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Escotilha

Parei um pouco a caminhada
Foi falta do que fazer
Foi falta de sono
Foi mesmo a vontade de olhar a estrada

Parei aqui pra lembrar de você
Foi falta de algo novo
Foi pra esquecer
Foi uma flor fedorenta perdida na gaveta

Lá fora a lâmpada fluorescente
A esquina
A madrugada pálida
Lá fora o mar profundo fora da gente

Aqui o silêncio que só um aguenta
Solidão
Soluço
O submarino que alma frequenta

Pele, músculo, olho e cabelo
Mas nenhum sorriso na escotilha do espelho

Roupa, tique, conhaque e gelo

E nenhum sorriso na escotilha do espelho

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Desperdício (Dois)

Endurecer a alma é um desperdício de tempo
Do tempo que nos cabe aqui
Mesmo que te assolem os dedos apontados
Os sermões burros ensaiados
Mesmo que a solidão seja a tua única morada
Ante a gente dura
As faces duras
As palavras duras
O coração duro e virgem de si mesmo

Endurecer a alma é um desperdício

Então o deserto não esquece sua aridez quando anoitece?
O mar não recolhe sua amargura quando alimenta os rios?
Então nisso eu quero ser leve
Eu quero ter meu riso na memória dos meus amigos depois do meu ato final

Depois que chegar a hora de eu brincar noutro quintal

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Vem um tempo aí

Não dormi na hora
E agora estou com sono
Vem um tempo aí
Vem um tempo de chuva lá fora
E depois vem a chuva

Minha janela é antiga
Lá onde a chuva vai cantar
Vai amarrar toneladas nas minhas pálpebras
Mas eu duvido
Minha alma voa
E ela gosta de me levar

Não durmo quando é a hora
E agora estou com sono
Vem um tempo aí
Vem uma festa pra mim
Ou um doce abandono

Vem um tempo aí
Minha alma sorri que não se aguenta:
Vem, Beto! Vamos lá fora!

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Quebrado

Quando percebi eu já era todo errado
Dono de um comportamento indevido
De um sentimento absurdo
De um brilho mal-educado

O meu sono era torto
O meu sonho vagabundo
Minha noite transviada
Minha música um barulho
Meu coração inapto para o mundo

O meu amor era incômodo
O meu perdão covardia
Minha insônia maldição
Minha alma um mar turvo
Meu choro pornográfico

E então onde estava todo mundo?
Quando algum sufoco me perambulava pra onde essa gente esperta se mandava?
Eu ali quebrado
As vidraças do meu ser apedrejadas pelo medo deles
Pela miudeza deles
Eu ali quebrado e sempre inteiro
Ereto e vivo
Feito a graça com que Deus me abraça
Eles intocados
Protegidos de cometer alguns erros
Curvados abaixo de seus tetos
Tumbas disfarçadas de casas
Nenhum arranhão em seus rostos
Corações intactos
Eu todo quebrado e todo vivo

Eles no discurso das moscas… falando mas já falecidos

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Meus olhos

Quando me acerta
Quando é a hora
Isso que me falta e que me sobra
Isso que me atrasa e que me adianta
Fecho a janela
Desço ao porão
Eu vou embora
Peço licença ao Sol
Apago minhas velas
Fecho a porta
Fecho meus olhos

Só pra eu ver o que realmente importa