segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

COMIGO

Deixa isso aqui comigo
Feito um bebê a ser guardado
Feito um espaço de tempo a ser velado
Quando passarem os dias
As tuas risadas
Dirá tranquilamente ao mundo
Que fui apenas uma tarde
Fui apenas e nem mais que isso
E mais nada

Quanto da nossa voz
Gastaremos com o que a gente não fala?
Quanto é que eu te devo
Da minha alma rica e solitária?

Então deixa isso comigo
Que eu tomo conta
Como quem cuida de uma lágrima quando a vida quase nos escapa

Deixa isso aqui comigo
Feito um lembrete na porta da geladeira
Feito um brinquedo que a criança só olha
Quando seguirem os dias
As tuas lombadas
Dirá abertamente ao mundo
Que fui apenas uma tarde do lado de fora
Mas em teu peito uma tarde que nunca mais foi embora

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

HOJE É DIA

Você pode estrebuchar em tua cama
Esparramar os pensamentos pela casa
Navegar com o ponteiro do relógio
Segundo após segundo
Pode chorar
Rir
Depois chorar outra vez

Se a tristeza não dá sono
Deixa-a em casa
E vá passear
Por isso
Hoje é dia

Você pode vasculhar a caixa de cartas
Bisbilhotar as entranhas digitais atrás de um vestígio de amor
Mas o que foi que você ainda não percebeu?

Pena de si mesmo é um auto-desprezo

Se a tristeza não dá sono
Deixa-a em casa
E vá se procurar por aí
Por isso
Essa noite é dia
Hoje é dia

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

COMO POSSO DIZER?

Como posso dizer o que vejo?

O despojo que eu era para os teus olhos
Rejeitou
Nem fez questão
Agora então quer me falar de dor?

Nenhum rancor ficou
Nem uma fagulha daquele amor
Foi como você plantou
Ventou, ventou
Ventou-me pra onde agora estou

Surpresa?
Que nada!
Olha pra lua
Lá eu escrevi a lápide do que você matou

Como posso dizer como foi?
O esbulho que tua mão não ousou
Esqueceu
Nem guardou uma frase
Agora diz que me descobre naquela canção?

Nenhuma noite restou
Nem uma lágrima sobrou pra hoje
Dei-te quase todas
Nem viu, nem viu
Nem viu-me expelindo o amor

Dei-te quase todas
Só guardei umas poucas
Para o Vininha levar depois

domingo, 30 de novembro de 2008

HÃ?


A voz saindo pela boca
Um jeito
Vezes certo
Vezes erro
Vezes meigo
Vezes grito
Adeus
Saudade e desespero
A canção do que foram os erros
Mas depois de um tempo
Quando a boca se fecha
A voz estacionada no peito
Feito Raul de Souza soprando algum triste contentamento
Será que nessa hora vamos nos perdoar de nós mesmos?
Hã?

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

JÁ FOI?


Vê, meu bem?
A multidão vem em ondas
Uma maré que sobe a cada metrô
E desemboca na Sete de Abril com a Ipiranga

Sim
Alguma coisa acontece no meu coração
E é desde oitenta quatro
Quando, em coro, a nação cantava sua automedicação
Sem saber que direta era só a queda
Para o sono que viria então

A culpa é daquele
É do fulano
É do vizinho
Do outro
De alguém que existe só na nossa imaginação

Dorme
Entre um engarrafamento e um escândalo
Entre a violência e a novela dos oito
Entre um carnaval e outro
Uma copa do mundo
Bela merda
Que a gente exibe com excitação

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

DESMONTADO

Desceu a última gota de dor
Do espasmo amanheci com o sol
Um perdão tataravô me acertou
Olá... Olá... Olá...

Deixei os dois no vão
Os dois parados no céu
Os dois parados na rua
Mas foi só na lua que meu olhar se aquietou
Quando minha alma bandeou pro meu lado
E voltou pra casa
E isso foi ontem
Foi já
E depois, e depois...

Desceu a última gota de dor
Da ilusão de achar que havia um lugar em teu peito
Pra amontoar o meu

terça-feira, 21 de outubro de 2008

COMO VOCÊ PRETENDE ME VISITAR


Eu já vou
E você finge que nem entende
Hoje ou amanhã
No século seguinte
Há de ter a tua hora de não saber onde eu fui parar

O que pra você é viver?
O que pra mim é um pesadelo?
Sei que você vai então se entorpecer com um pouco mais de televisão

Eu já vou
E você finge me esperar pro fim de semana
Hoje ou amanhã
No dia que o céu despencar
Há de ser vã a tua coleção de cartões de crédito

O que pra você é um bem?
O que pra você faz bem?
Respirar não é um estilingue que nos arremessa através dos calendários

A gente pode se tratar melhor
Olha que a gente pode se tratar melhor
Se não como você pretende um dia me visitar?

terça-feira, 14 de outubro de 2008

IMORTAL




Sei que me percebe em tempo
Que me pesa em anos
Ontem serão duzentos
Hoje serão oitenta
Amanhã te digo que serão cinqüenta
E na quinta à noite
Quando a euforia nevoar nossos olhos
E embriagar a alma
Tchuca, eu te prometo que é tudo isso agora

PUTEIRO


Ali e ali
No grisalho dos olhos
Na lágrima
Onde se conectam a fala e as outras intenções
As resoluções da pobreza humana
E as soluções prospectadas
A massa sonolenta
Malditos marqueteiros
Malditos sonolentos
Não enxergam que é tudo mentira
Bem ali
Na musiquinha que nos visita a cada quatro anos
Fantoches vampirescos e suas três mães putas
A mídia
Essa justiça moribunda
A falta de vergonha
E passeamos ledos por essa merda toda
Tendo que escolher um desses filhos da puta

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

ESCORREU


Passeia agora
Um barulho de tênis amolando sua sola
Um silêncio que perturba aquilo que não se acorda
E depois vai deitar
Me esquecer num canto qualquer da casa

Quando, de olhar o mundo, eu fiquei entediado
O coração morno batendo travado
Foi você aos meus olhos se mostrar
E quando estes ao coração te apontaram
De entediado ficou folião
E se mostrou feito o sorriso do sol
Num primeiro dia de verão

Mas passeia
E agora?
O desespero se afoga
Na louça que a gente lava quando chega a tarde
E no reflexo isso que me indaga
Será que foi só a água que escorreu e foi embora?