quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Escotilha

Parei um pouco a caminhada
Foi falta do que fazer
Foi falta de sono
Foi mesmo a vontade de olhar a estrada

Parei aqui pra lembrar de você
Foi falta de algo novo
Foi pra esquecer
Foi uma flor fedorenta perdida na gaveta

Lá fora a lâmpada fluorescente
A esquina
A madrugada pálida
Lá fora o mar profundo fora da gente

Aqui o silêncio que só um aguenta
Solidão
Soluço
O submarino que alma frequenta

Pele, músculo, olho e cabelo
Mas nenhum sorriso na escotilha do espelho

Roupa, tique, conhaque e gelo

E nenhum sorriso na escotilha do espelho

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Desperdício (Dois)

Endurecer a alma é um desperdício de tempo
Do tempo que nos cabe aqui
Mesmo que te assolem os dedos apontados
Os sermões burros ensaiados
Mesmo que a solidão seja a tua única morada
Ante a gente dura
As faces duras
As palavras duras
O coração duro e virgem de si mesmo

Endurecer a alma é um desperdício

Então o deserto não esquece sua aridez quando anoitece?
O mar não recolhe sua amargura quando alimenta os rios?
Então nisso eu quero ser leve
Eu quero ter meu riso na memória dos meus amigos depois do meu ato final

Depois que chegar a hora de eu brincar noutro quintal

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Vem um tempo aí

Não dormi na hora
E agora estou com sono
Vem um tempo aí
Vem um tempo de chuva lá fora
E depois vem a chuva

Minha janela é antiga
Lá onde a chuva vai cantar
Vai amarrar toneladas nas minhas pálpebras
Mas eu duvido
Minha alma voa
E ela gosta de me levar

Não durmo quando é a hora
E agora estou com sono
Vem um tempo aí
Vem uma festa pra mim
Ou um doce abandono

Vem um tempo aí
Minha alma sorri que não se aguenta:
Vem, Beto! Vamos lá fora!

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Quebrado

Quando percebi eu já era todo errado
Dono de um comportamento indevido
De um sentimento absurdo
De um brilho mal-educado

O meu sono era torto
O meu sonho vagabundo
Minha noite transviada
Minha música um barulho
Meu coração inapto para o mundo

O meu amor era incômodo
O meu perdão covardia
Minha insônia maldição
Minha alma um mar turvo
Meu choro pornográfico

E então onde estava todo mundo?
Quando algum sufoco me perambulava pra onde essa gente esperta se mandava?
Eu ali quebrado
As vidraças do meu ser apedrejadas pelo medo deles
Pela miudeza deles
Eu ali quebrado e sempre inteiro
Ereto e vivo
Feito a graça com que Deus me abraça
Eles intocados
Protegidos de cometer alguns erros
Curvados abaixo de seus tetos
Tumbas disfarçadas de casas
Nenhum arranhão em seus rostos
Corações intactos
Eu todo quebrado e todo vivo

Eles no discurso das moscas… falando mas já falecidos

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Meus olhos

Quando me acerta
Quando é a hora
Isso que me falta e que me sobra
Isso que me atrasa e que me adianta
Fecho a janela
Desço ao porão
Eu vou embora
Peço licença ao Sol
Apago minhas velas
Fecho a porta
Fecho meus olhos

Só pra eu ver o que realmente importa

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Fui Eu

Eu
Ascendi teus olhos no hora dura
Suspendi teu riso àquela altura
Onde o canto dos teus grilos se calava
Fui Eu

Eu
Vesti tua alma com fel e doçura
Dei-te a janela da tua bela loucura
Onde habita o ofício dessa tua alma
Fui Eu

Fui Eu, fui Eu
Teu pai e tua mãe
A tua derradeira escola
Fui Eu, fui Eu
Quem te ensinou
Mais vale as costas do amor
Que do mesmo uma esmola

Eu
Queimei o cobertor que te engana
Mostrei o frio que a mentira não profana
Onde o coração forte resiste teimoso e fundo
Fui eu

Eu
Tirei teu sono pra te dar a estrada
A companhia de uma lua ensolarada
Onde plantei os sonhos que tu sonhas
Fui Eu

Fui Eu, fui Eu
Tua puta e tua dama
A fornalha do teu coração
Fui Eu, fui Eu
Quem te ensinou
Mais vale o adeus do amor
Do que o seu olá por pura educação

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Transbordado

Sabe isso?
A métrica academicamente permitida
A gente vestida de santo antes mesmo de um milagre
A frase pronta e desinfetada
Politica e falsamente correta

A celebridade instantânea e oca
A música intelectualizada e fedida
Que senta sobre o seu rabo sem sair da toca
A música prostituída e cheia da grana
Que arrebata a burrice tão em alta

Sabe isso?
Que causa ânsia aos meus olhos
Que causa enxaqueca aos meus ouvidos
Sabe?

A Pinacoteca e seus fantasmas soberbos
A foto da bunda daquela
Que parece aquela que parece a outra
Que parece a louca vontade por qualquer tolo clique
O ibope
O hit
Tanta erudição

Tão pouca alma

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Respiração

Havia uma garota que chamava a minha atenção. Eu a perseguia com meus olhos timidamente quando ela aparecia pelo meu boteco preferido. Ela tinha algo singular. Sim, é algo simples de se dizer sobre qualquer desconhecido, mas ela realmente tinha.
Eu não fazia idéia do que era. Não era tesão ou apreciação por um padrão de beleza.
Certa vez, numa das noites por lá, alguém disse que a cerveja não estava devidamente gelada. Ela fez então uma cara: A cerveja está como deve ser.
Lembrei então imediatamente de minha avó. Era isso. Minha avó sempre teve um humor simples e forte. Era uma força encantadora, algo que eu vi em pouquíssimas mulheres. Ela tinha aquilo. Enfim.
Eu do alto de umas oito cervejas resolvi fazer um elogio: Você sabia que me lembra a minha avó?
Ela então mudou de rosto. Fez uma cara de ofendida e aquilo que eu admirava desapareceu.
É foda. O primeiro quintal que as palavras habitam, quando alguém despenca da boca o que pensa sem respirar numa pausa, é o quintal dos absurdos. O mais foda é que pode ser um absurdo lindo ou um absurdo tenebroso.
Ela ficou puta, imaginando que eu estava destilando algum tipo de piada.

Eu estava bêbado demais e falei tudo rápido demais. Acho que eu não esperei a razão que viria depois de uma simples respiração.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Tão Longe

Eu vi de perto
Eu estava tão longe
Aquela gente tosca
Aquela procissão triste e turva


Sabiam da letra mas não da alma da canção
Cuspiam sorridentes o discurso pronto
E os dentes branqueados na clínica
E a etiqueta das roupas rasgadas


Juravam uma única felicidade absoluta
Mostravam com orgulho sua própria prisão
E o riso era pautado no tom da moda
E o amor tinha preço e tamanho


Vi que então secavam o rosto
Apontavam neles uma lágrima púrpura
E não entendiam de nada
Da lágrima
Do gosto de sal
A possibilidade do novo era pra eles uma dor absurda


Eu vi
Eu que era o triste
O que não pertencia à sala alguma
Eu já em outra parada
Chorei de alívio
Eu estava tão longe

Sei Não

Uma vez
Sei não
Sabe?
Sabe onde o beijo é menos ácido e mais irmão?

Uma vez eu vi meu pai jogando futebol
Uma vez eu ouvi o Toquinho tocando violão
Abri a janela porque a chuva era bonita
Abri meu peito porque a moça era bonita

Uma vez eu vi o sol apagar em pleno dia
Uma vez eu tomei café sem pressa alguma
Fiquei quieto e a casa estava vazia
Fiz barulho pra noite não me abandonar

Sei não
Sabe?
Sabe onde o sono é mais breve que uma ilusão?

Uma vez eu tomei conhaque antes da escola
Uma vez estava frio e eram dois sob o colchão
No coreto da praça dormia o Tobias
A ferrugem ficava tão bonita no portão

Uma vez o piano tinha cheiro de fantasmas
Uma vez os sonhos pingavam do meu suor
Vi a diáspora das formigas na cozinha
Vi a menina que fingia que não me via

Sei não
Sabe?

Sabe como é ser adulto e ter uma criança no coração?