sexta-feira, 7 de março de 2014

Impecável

Eu vejo os impecáveis
Eu os tenho com pena
E com alívio
Um analgésico para os meus mais preciosos defeitos

O seu medo inominável
O seu receio em usar o erro
Uma das ferramentas mais poderosas desta existência

Como se o acerto fosse desinfetado de humanidade
Como se a alma humana fosse tão tosca e miúda
Incapaz de levantar depois de um erro

Escolhem o acerto seguro
Límpido e acadêmico
As palavras permitidas
A norma
O tom correto
A regra formal
Corações formais
Bando de cagões

Eu quero enricar o meu espírito
E quando jaz pó

De todos os meus erros eu terei o acerto de ter realmente vivido

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Deixa quieto

Deixa eu ver
Qual é mesmo o gesto?
Qual é a frase que eu devo dizer antes disso tudo?

Sabe?
Fique aqui
Pode ficar com tudo
Sou eu que quero correr
Eu quero é pular o muro
É foder com esse papel de parede

Deixa quieto
É minha culpa
É minha
A paz que eu deixei pendurada na lua
Pra caber no teu terno
Nesse terno
E o que é terno entre os infames homens sérios?

Deixa quieto
Deixa quieto
Já deu a hora da missa de domingo
E eu vou estragar a festa

No fim das contas Deus tem um carinho secreto para com os seus perdidos

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Samba Enredo

E te agrada a frase pronta
Mas esquece do que dá forma à tinta
Do que controla a mão
Do que motiva a idéia
Da aflição explosiva sem etiqueta
Da depressão solitária
Muitas vezes secreta
Da euforia que escancara a alma
A mania absurda

Acha estranho
Das coisinhas do mundo que mastiga
Nem apetite meu coração sente
Pois sente fome do que dele mesmo se estende
Até onde a vista comum nunca alcança
Até onde será meu coração venenoso pras tuas certezas

Do amor travestido saberá todas as letras
Feito um samba enredo

Do meu amor capenga prefiro mesmo é saber do gosto

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Tequila Baby

Foi quando o mundo era mais lento
Ninguém oferecia um copo de água esperando um Nobel
Foi bem ali
Quando vi a melhor seleção de todos os tempos perder para a Itália
E foi tanta coisa
Atiraram no John Lennon
Meu pai chorou pela Elis
Meu avô soltou os pássaros do viveiro
Minha avó fez seus pães caseiros

Eu e meu irmão
Éramos índios
Astronautas
Náufragos de um bairro novo e desabitado
Lembra disso, Tuttão?
As iças numa caixa de bombons
A Chula numa caixa de sapatos
Nossas coxas rasgadas pelo mato colonião
Quando a dente de leite se afastava

Ali na luz que a janela permitia
Eu era algo
Eu era feliz e triste
Um universo inteiro contido num corpo de criança

Lembra, Tuttão?
A nossa dança na música das abelhas
A Arca de Noé
A nossa fé nas estrelas

Lembra do céu ensolarado de um domingo?
O lago e o escorregador
Nossos corpos
Torpedos de alegria
A ducha fria

Lembra do frio em Santos
O sono no banco de trás de uma brasília

As latas de cervejas dos adultos
Não era alumínio
E isso?
Será que é poesia
Ou bebedeira?
Tequila, baby?

Tequila a noite inteira

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Mudou Sim

Algo mudou sim
Feito uma ave que eu queria numa gaiola
Mas que enfim fiz as pazes com ela
E então ela veio pousar no meu ombro

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Interessante

Torne a vida interessante
Pois não é a grana
A embriagues da fama
O cargo conquistado aos tapas
O puxa-saco
Quem sempre concorda com tudo
Quem sempre calcula o risco
O atraso
Entre a hora tarde e uma boa história
Entre o lençol e os braços do mundo

Torne a vida interessante
Pois não é a regra
Ou a anarquia mimada
O cheiro plástico do carro novo
A gravata
Quem sempre vive alinhado
Quem sempre sorri da piada
Da bobagem
Quando a festa é chata mas tá bombando
Quando a frase é tola mas tá na moda

Torne a vida interessante
Mesmo se isso for sempre ficar de fora

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Fundo de Copo

Vou por aí porque preciso
Vou por aí meu velho amigo
Deixei algo de mim
Algo de ti ou de tudo
Algo que enfim me traduzia pro mundo

Quando parti feito um louco
Tatuei uma saudade em meu corpo
Pra matar em algum fundo de copo

O riso
O conselho
A burrada
O futebol
A ressaca
A madrugada que a gente rasgou num bilhar
Ou numa calçada

Não lembro
Não sei
Mas há algo que hoje me falta
Que me habitava feito um anticorpo

E que hoje eu busco em algum fundo de copo

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Um Curta

Havia uma janela
O meu reflexo tristonho
O choro bobo
Porra, há um buraco nessa lágrima
De onde escorre a minha alma
De onde cai a alegria que ponho de castigo
De onde eu me nego pra quem talvez me ame

E assim, talvez
Talvez o medo
Talvez o resto do barato
Do rolé na minha velha bicicleta
Da ressaca da década de oitenta
Talvez só a falta de saco pras bobagens importantes

Mas desta merda vem o discurso
Vem o aerosol colorido nos olhos abobalhados
Qualquer besteirol cuspido numa novela
É osso
É o poço onde se atola essa gente toda

Quando choro sou um pobre solitário
Quando rio sou um cachorro filho da puta
Eita mundinho que só curte um curta

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Gargalhada

E quando é assim?
Quando foi ontem e já amanhã
Agora
Lá depois do tombo
Do beijo
Do primeiro trinco no coração

Depois de um amor quebrado
De um amigo que partiu
Dos pais distantes
Do assalto legalizado
Da solidão
Esse rolo compressor que usamos pra pavimentar a modernidade

E quando é depois?
Onde é algo bobo
Uma piada
Uma mentira engraçada
Ou o seu nome noutra boca com carinho
E quando é assim?
A explosão que te alivia
Essa bomba do caralho chamada gargalhada

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Tosse

Sabe uma tosse?
Daquelas que você guarda por anos
Que você segura sem perceber
Pois não há tempo
Enquanto você chora
Enquanto você se encolhe amiúde
Por uma saudade inicialmente clara
Por uma culpa inicialmente justa
Duas putas que zombam da tua cara
Enquanto te roubam a alma
Sabe uma tosse?
É feito isso
Feito o foda-se que eu te dou agora