segunda-feira, 30 de junho de 2008

BOTECOS

Eu não fico mais aqui
Não fico mais assim
Destilo essa rua com os olhos disfarçados de dóceis
E a alma debruçada sobre uma outra paisagem
A que não lhe cabe entender

Que bom duvidar do mundo sem nenhuma companhia
Sem nenhuma apatia de pensamento esperando um consolo
Zé, traz mais uma!

Eu não me entrego aqui
Não marco mais assim
Sambo meus suspiros no meu canto e só meu
No supra-ritmo que explode secreto no melhor do meu peito
Esse que bebeu o teu veneno
E não morreu

Que dom
Esquecer você de maneira tão comportada
Nem choro ou farsa
Só o olhar umedecido
Trazendo o mar pra dentro do bar
Traz mais uma!

Sento aqui sem vontade de falar
Sem reviravoltas a jurar
O suor do copo gelado
Isso que até pode ser paz
Sozinho do outro tempo

Eu não fico mais aqui
Não perco mais assim
Ajeito o cacheado do meu cabelo com uma mão
E atiro sem precisão a outra no vento pra acenar um adeus

Que bom
Duvidar de uma dor com tamanha propriedade
Engasgá-la no que sei de mim
No que sei da vida
No que vale a pena
Vivendo pra aprender que a gente não sabe de nada
E isso não faz mal

A ESPERANÇA VS ALGUMA COISA

Teu lugar já não serve mais em mim
Onde eu fui?
Eu nem disse adeus!

Teu julgar já não sabe nada de mim
No meu olhar todos os dias são meus!

Eu já nem saio mais
Já nem durmo mais
Já nem sonho mais
Já nem ligo mais se dói

Meu lugar já escapa dos dedos teus
Onde eu vou?
Eu nem disse adeus!

Existe algo mais que eu sei que é meu
E o teu tosco remédio
Falso que seja seu

Eu já me vejo lá
Já nem choro mais
Já nem bebo mais
Já nem perco mais o sono

Teu lugar nunca foi meu corpo
Já se vai?
Eu bem te conheço!

Num cantar zoei do teu conselho
Já me vê?
Eu bem me conheço!

Eu já me deixo lá
Já me perco lá
Já me venço lá
Já nem conto mais as horas
E são tantas as que ganho
Se do teu sono me ausento

sexta-feira, 13 de junho de 2008

CALENDÁRIO

Então a gente acorda
Cada um num canto
A cara tristonha tatuada numa manhã de outubro
Mas que dia é mesmo da semana?
Que frio é esse por dentro da meia?

Bola de plástico
Caderno de desenho
Arca de Noé
Copa de 82
A menina da primeira fila
O livro das perguntas
Vontade de trepar
Amor
Calor de 92
Ribeirão
Meira Junior
Ressaca
Risada
Apertar um
Seattle
Vinícius de Moraes
Adeus Mussum... Adeus Mussum
Iraque
Quase casar
Adeus
Sofrer por se bastar
Torres Gêmeas
Mais mentira
Sampa
Chorinho na praça
Ipiranga e garoa
E de novo o Vinícius
Pinga
Faz um tempo
Taquaritinga
Sozinho
Pai e Mãe
Tuttão

E Então a gente acorda
Cada um num canto do planeta
E a cara na TV que mente o seu dever é uma careta

Zuzu, hoje eu não vou trabalhar

quinta-feira, 15 de maio de 2008

SE

Se toda a minha vida estivesse aberta à minha consciência
Dos recantos passivamente esquecidos nas estantes de minha memória saltariam as imagens
As vozes vertendo frases
Os cheiros
O gosto salgado da torrente de lágrima quando alcança o canto da boca
A quase dor abdominal de cair na gargalhada
Os nãos e os sins
As gripes
Os gols
Os amigos que a vida engoliu em algum lugar
Eu poderia olhar para o mapa do meu espírito e dizer:
Eis o mar onde sou meu quando dessa terrinha me perco
Eis o céu onde eu desmaio
Eis a lua que no sono eu ganho e de sonhar-me liberto me vicio
Mas mais ao escuro, longe do meridiano que pulsa
A sala vazia
A sala que escola torta construiu dentro de mim
Onde sou quieto, calado
Onde não sonho
E onde me dano ao usar o pomposo terno

RÁDIO

A tarde já vai passar?
A tarde da minha vida?
Eu quieto fronte à vista
Vendo esse estranho pela minha casa perambular

E quando eu terminar de contar essa história quem irá notar?
O centavo esquecido no bolso da calça de ontem
O sopro do vento que entra por baixo da porta
O arranjo na política de supermercado
A bobagem cultivada na televisão
O barulho da chuva e quando acaba
Quem irá notar?

Então já vai passar?
A tarde da minha vida?
Sem que eu aprenda que preciso desligar o rádio e cantar a minha canção

quinta-feira, 17 de abril de 2008

VAGA-LUMES

Lá onde agora você não vê
Eu te espero pra mais tarde
Num bocado de nem ter o que fazer
Um final da tua sacanagem
Um pouco de justiça para o meu peito
Este saco de pancada que não cabe na sua mão

Incineraram os vaga-lumes
As boas idéias acabaram?
E para as suas crianças o céu é solidão
A lua
Um buraco claro no certo
Esse moderno torto certo

Mas lá onde agora você não vê
Eu te espero pra mais tarde

terça-feira, 15 de abril de 2008

MEU ANJO-MONSTRO

Liberta o corpo do pano da coberta
O sol pendurado a zero graus dos olhos
Boca maldita por dizer que nem entende o hábito comum
Que nem se compreende no hálito metálico do caixa automático
O que você quer mesmo saber?
O pico dos arranha-céus
Alçapão das almas
Vê que ele nem tem espaço pra voar dentro do terno azul

Ah
Esse terno azul tão alinhado
Tão comportado
Tão alinhado na contra-mão do meu sorriso
Somos tão mal interpretados
Somos tão mal aproveitados
Foi sábado... hein?

Monstro repugnado assoviando na sala dos bons meninos
Na ripa
Chutado, vaiado, fodido
Mas no riso o anjo
Cuspido a cara do sonho que não se caça com a caneta sobre o talão gelado
O que você quis mesmo saber?
Já foi passeando de olhos pelados
Pelas besteiras do mundo
Guardando em silêncio a beleza
Leveza e som... Hoje tá tudo apagado

quinta-feira, 6 de março de 2008

QUANDO O CANÁRIO NÃO SOUBE VOAR

Uma vez eu vi um menino deitado numa tarde de sol
O céu feito uma lousa
O corpo estirado na calçada mal terminada de seu bairro secreto

Diziam na televisão que a voz morreu numa terça-feira de janeiro
E que nesse ano um canário ganharia uma copa

Mas o menino ainda era livre dos olhos
E mantinha-se refugiado nas ruas de uma pequena cidade

Sabia que vinha por detrás dos anos
Os professores acovardados
Doidos pra encurtar o seu doce olhar

O desconhecido que hoje espera depois da porta da sala de estar
Era o mesmo que acenava de uma padaria
De uma canção
De um carro sem cor
Da lua
Do sorriso que a mãe oferecia quando era hora de acordar

Ele sabia que viver não era esperar um sábado
E que os terços de seu avô podiam conversar

E que da torre perdida da matriz
Deus chorava e ria quando chegava a hora do sino tocar

Uma vez eu vi um menino deitado numa tarde de chuva
O céu feito uma cortina
O corpo lavado do medo que hoje é vendido via celular

E do lado esquecido
Contava as preces que faziam a novena andar
Silêncio sempre confundido
Mas nunca
E nunca o olhar

Toda noite o sono esperava
Até que o misterioso trem o viesse visitar

Então um dia ele viu um homem vestido com terno e gravata
Chorando num banco de praça
E também o pipoqueiro
O dono da farmácia
O vizinho e o diretor da escolha

Ele não achava possível tudo aquilo
Um país inteiro com um hino
Pois o canário deixou a copa escapar
Mas será que o choro era só isso?

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

FINGIDA

Sendo tarde e tardando teu sono tranqüilo
Percebes que me encontra em tua cama
Tua prece e teus ouvidos
Fecha os olhos pra escapar de um pensamento furtivo
Que escorre dos teus olhos e ganha a rua
Pra procurar-me e saber se eu ainda estou vivo

Mas se encolhe na educação internada
E engole o meu nome soluço a soluço
Depois no dia seguinte passeia pela rua
Escolhe as bobagens nas vitrines
Pra fingir ao mundo que é tua
E tua e somente tua
A alegria que morava em teu peito
Mas que agora perambula comigo

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

ENFIM ADEUS

Tá bem
Não abra a porta
Não queira ouvir de mim
Que foi a madrugada quem teimou em me segurar

Afora
Eu fui sorriso
Eu fui uma voz
Eu fui embora de nós dois
Depois de tanto tempo sem saber de mim

Tá bem
Tá bem
Desta vez na quarta-feira a gente não vai se abraçar

Meu bem
Não abra a porta
Não espere um jeito
Pra gente misturar nossos tantos defeitos... Pra quê?

Afora
Eu fui cativo
Eu fui alívio
Eu fui meu pai e meu filho
Eu fui um rei mendigo
Sorrindo, sorrindo, sorrindo... sorrin

Tá bem
Pra quê?
Teu cinto forte em meu peito doeu
Mas passou