segunda-feira, 4 de abril de 2016

De lado

Está aqui e ali
Mas ninguém vê
O dedo em riste de tanto temer
Beber demais o café conveniente
E nem ligar se o que está por baixo
É chão
É lama
Ou é gente

Parti eu daqui
E a minha fé
Escolhi a escola que é se perder
Cavar um poço dentro de si
E separar dos meus pedaços
O que é meu
E o que é do mundo

E é logo ali
É tão ao lado
Como o ré do mi
Tão encostado
Mas desde sempre fomos educados
E ao esbarrar com a nossa alma

Sempre viramos de lado

domingo, 3 de abril de 2016

Estupidologia

Agora sim
É desta vez
Papai dizia:
O mundo é de vocês!

No meu tempo a gente sofria
No meu tempo não havia tempo
Pra dizer bom dia
Pra ficar atento à quadrilha hereditária

Mas espere um pouco?
Que porra é essa?
Quem entregou a chave do mundo aos abutres?

Agora vi
É outra vez
A tv saliva:
Eu canto com vocês!

No hemisfério a gente se espreme
No hemisfério a descarga liberal
Mas todos felizes
Todos empenhados em se lambuzar

Mas espero um pouco?
Que porra é essa?

É a cruz bugada que chega sem vibrar

terça-feira, 29 de março de 2016

De volta

Voltaria
Sim, voltaria
Encontraria de novo, pela primeira vez
Meus grandes amigos
Vizinhos
Cantos e botecos
Os barulhos da noite
O sol forte
O skate
O açoite que era segurar um riso
O piso frio da sala
A porta destrancada
A coragem

Voltaria
Sim, voltaria
Conheceria de novo, pela primeira vez
O primeiro acorde
O vinho
Livros e bêbados
A canção forte
O copo
O meu rosto arrombado com um riso
O caso do amigo
A porta destrancada
Pai e mãe dormindo sob o mesmo teto

Voltaria,
Sim, voltaria
Avistaria de novo, pela primeira vez
O quadro negro
O giz
Desenhos e silêncio
A zona na cabeça
O futebol
O meu coração espatifado
Que cuidadosamente eu fui colando...
Átomo por átomo

domingo, 13 de março de 2016

Lembrar

Parece ser meu eterno erro
Jamais entregar tudo de mim
Jamais mostrar todas as salas da minha alma
Apenas pra ter algo somente meu


E quem me detesta me chama de estranho
E quem me ama me acusa de ter segredos


As noites que jamais terminaram
As notas da Barbarella
A amizade forjada a risos e pontapés
Agora solidão… solidão de si mesmo.


Os poetas da Bossa Nova…
Os fantasmas do Grunge…
Tornei-me um puto… no conformismo absoluto
De que tudo que se sonha jovem é falta de experiência.


Parece ser meu eterno erro
Levantar-me para um café
Levantar-me para a vida

E lembrar… e lembrar… e lembrar...

sábado, 5 de março de 2016

Que se fodam os poetas

Solidão não tem lugar
Não escolhe rosto nem parentesco
E não importa nada
Você é o padrasto cruel
O assaltante que rouba a alegria da casa

Solidão é o amigo invisível que o poeta carrega
Ela o alimenta
Leva ao trabalho
Ao dentista
Ao boteco e a novena
Silenciosamente
Pacientemente

Eles amam os poemas
Mas detestam os poetas

O poema é imortal
É puro e perfeito
É lindo
É cool

O poeta é louco e vagabundo
Sozinho e problemático
Triste e perdido
É estranho
Não é bom partido
Não é confiável
Não tem os pés no chão
É infantil
É tolo e sonha demais

Eles amam os poemas
Mas detestam os poetas

Os poemas são divinos
São sábios
Palmas e lágrimas aos poemas
E que se fodam os poetas

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Hoje eu lembrei de rezar
Escondi meu corpo debaixo do cobertor
Esperei a minha assombração
Mas ela estava presa no trânsito

E enviou uma cara triste
E eu fiquei triste também

Hoje eu lembrei de sorrir
Saltei pra encostar no galho mais alto
Guardei o foda-se para o final
Mas ele estava cansado do trabalho

E enviou um coração partido
E e o meu se partiu também

E o larápio diz:
Vamos crescer
Vamos sorrir peróxido de hidrogênio
Vamos rir pois chorar é feio
Vamos vestir qualquer besteira pra dizer que somos verdadeiros

Hoje eu lembrei de você
Vesti a tua alma pra olhar o mundo
Esperei a hora da escola
Mas a escola era um retrato no meu porão

E enviou uma cara puta
E eu fiquei puto também

E o larápio diz:
Vá crescer
Vá beber da malícia dos infiéis
Vá rir com a sua presa
Vá vestir qualquer besteira e jamais perceba...

Jamais perceba o quanto eu estou te roubando

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Solidão Número 42

E quando caio dentro de mim
Não há nada que me ofenda
Não há pedra que me acerte
Não força que me prenda


E quando tombo dentro de mim
Não há luta a ser vencida
Não há inimigo a ser batido
Não há intriga a ser exposta


A velha casa que o tempo não matou
O sol que bronzeava meus fantasmas
Os tijolos que meus pés escalaram
Quando ainda eram bem pequenos…


Uma hora dessas eu te levo pra dar uma volta por aí


E quando acordo dentro de mim
Não há mão que tape a boca
Não há dor que seja voraz
Não há medo ao atravessar a ponte


E quando durmo dentro de mim
Um agrado a todos vocês
Que passeia com o vento… solto por aí
Pedacinhos meus…
Átomos meus… por aí

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Alto-falante

Quando eu invadia tua casa calado
Você me pedia que eu fosse embora
Eu arrombava quieto o seu rosto fechado
Eu te roubava sorrisos a qualquer hora

Não havia parede sem o meu traço
Não havia escuro sem minha história
Os retratos na estante vigiavam o meu passo
Os fantasmas do mundo temiam minha fúria

Ai de ti se zombasse da minha aventura
Quando eu invadia um planeta distante
Estendia meu olhar para a tua figura
E meus olhos eram o teu alto-falante

Quando eu invadia as tuas saudades
Você me pedia pra guardar teu segredo
Eu sabia do vento das tuas velhas tardes
Eu contava as estrelas tatuadas em teu dedo

Mas então sem aviso chegou o tempo
E você foi embora sem me avisar
Eu guardei minha alegria num velho trapo
Eu esquecia dos dias sem me importar

Mas então sem aviso a vida andou
Eu fiz do meu peito uma coisa errante
Agora eu vivo o que você me ensinou
Agora o olhar de alguém é meu alto-falante

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Saco Cheio

Ah, meu armário pessoal
Sabe bem o que eu guardo
Mas da paciência que me cabe ando farto
Ando roto com as pequenices peçonhentas que suporto

Ah, meu armário pessoal
Sabe tudo da minha alma
Então que eles estranhem meu silêncio
Feito quem teme o clarão que precedo a trovoada

E de todas as belas palavras
Nada merece de mim essa gentalha
Só saco cheio e mais nada
Saco cheio e mais nada

Ah, meu armário pessoal
Sabe bem da minha batalha
Mas dizem que o mal humor que cai tão bem
Mesmo que não saibam que um espelho dessa paisagem

E de todas as cômodas desculpas
Nenhuma merece a minha piada
Só saco cheio e mais nada

Saco cheio e mais nada

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Iças

Quem é você dentro de mim?
Que chora assim
Que dói assim
Me leva ao fim de tudo que não importa
Pra que eu me dê conta de mim

Quem é você que vive em mim?
Que lembra assim
Que sonha assim
Me faz andar até depois da hora
E eu me perco dentro de mim

Tantas iças que me esperam
Tantas tardes que me devoram
Eu era ontem o cientista maluco
E qualquer tombo era tão pouco
Agora sou só um triste homem forte
Um triste homem forte
A dor calada em meus olhos
A vida represada no meu relógio
E quem é você que atrapalha esse meu tédio viral?

Quem é você que mora em mim?
Que tenta assim
Que teima assim
Me ensina a desenhar a minha porta
Pra que eu adentre dentro de mim

Tantas batalhas no chão secreto
Tantas manhãs que me acordam
Eu fui o dono da gargalhada
E qualquer tombo era um nada
Agora vem e não me abandona
Vem e não me abandona
Minha dor na rua num carnaval
Minha vida nua fora das horas
E eu sou só eu se você não vai embora
Não vá embora
Não vá embora