quinta-feira, 15 de maio de 2008

SE

Se toda a minha vida estivesse aberta à minha consciência
Dos recantos passivamente esquecidos nas estantes de minha memória saltariam as imagens
As vozes vertendo frases
Os cheiros
O gosto salgado da torrente de lágrima quando alcança o canto da boca
A quase dor abdominal de cair na gargalhada
Os nãos e os sins
As gripes
Os gols
Os amigos que a vida engoliu em algum lugar
Eu poderia olhar para o mapa do meu espírito e dizer:
Eis o mar onde sou meu quando dessa terrinha me perco
Eis o céu onde eu desmaio
Eis a lua que no sono eu ganho e de sonhar-me liberto me vicio
Mas mais ao escuro, longe do meridiano que pulsa
A sala vazia
A sala que escola torta construiu dentro de mim
Onde sou quieto, calado
Onde não sonho
E onde me dano ao usar o pomposo terno

RÁDIO

A tarde já vai passar?
A tarde da minha vida?
Eu quieto fronte à vista
Vendo esse estranho pela minha casa perambular

E quando eu terminar de contar essa história quem irá notar?
O centavo esquecido no bolso da calça de ontem
O sopro do vento que entra por baixo da porta
O arranjo na política de supermercado
A bobagem cultivada na televisão
O barulho da chuva e quando acaba
Quem irá notar?

Então já vai passar?
A tarde da minha vida?
Sem que eu aprenda que preciso desligar o rádio e cantar a minha canção

quinta-feira, 17 de abril de 2008

VAGA-LUMES

Lá onde agora você não vê
Eu te espero pra mais tarde
Num bocado de nem ter o que fazer
Um final da tua sacanagem
Um pouco de justiça para o meu peito
Este saco de pancada que não cabe na sua mão

Incineraram os vaga-lumes
As boas idéias acabaram?
E para as suas crianças o céu é solidão
A lua
Um buraco claro no certo
Esse moderno torto certo

Mas lá onde agora você não vê
Eu te espero pra mais tarde

terça-feira, 15 de abril de 2008

MEU ANJO-MONSTRO

Liberta o corpo do pano da coberta
O sol pendurado a zero graus dos olhos
Boca maldita por dizer que nem entende o hábito comum
Que nem se compreende no hálito metálico do caixa automático
O que você quer mesmo saber?
O pico dos arranha-céus
Alçapão das almas
Vê que ele nem tem espaço pra voar dentro do terno azul

Ah
Esse terno azul tão alinhado
Tão comportado
Tão alinhado na contra-mão do meu sorriso
Somos tão mal interpretados
Somos tão mal aproveitados
Foi sábado... hein?

Monstro repugnado assoviando na sala dos bons meninos
Na ripa
Chutado, vaiado, fodido
Mas no riso o anjo
Cuspido a cara do sonho que não se caça com a caneta sobre o talão gelado
O que você quis mesmo saber?
Já foi passeando de olhos pelados
Pelas besteiras do mundo
Guardando em silêncio a beleza
Leveza e som... Hoje tá tudo apagado

quinta-feira, 6 de março de 2008

QUANDO O CANÁRIO NÃO SOUBE VOAR

Uma vez eu vi um menino deitado numa tarde de sol
O céu feito uma lousa
O corpo estirado na calçada mal terminada de seu bairro secreto

Diziam na televisão que a voz morreu numa terça-feira de janeiro
E que nesse ano um canário ganharia uma copa

Mas o menino ainda era livre dos olhos
E mantinha-se refugiado nas ruas de uma pequena cidade

Sabia que vinha por detrás dos anos
Os professores acovardados
Doidos pra encurtar o seu doce olhar

O desconhecido que hoje espera depois da porta da sala de estar
Era o mesmo que acenava de uma padaria
De uma canção
De um carro sem cor
Da lua
Do sorriso que a mãe oferecia quando era hora de acordar

Ele sabia que viver não era esperar um sábado
E que os terços de seu avô podiam conversar

E que da torre perdida da matriz
Deus chorava e ria quando chegava a hora do sino tocar

Uma vez eu vi um menino deitado numa tarde de chuva
O céu feito uma cortina
O corpo lavado do medo que hoje é vendido via celular

E do lado esquecido
Contava as preces que faziam a novena andar
Silêncio sempre confundido
Mas nunca
E nunca o olhar

Toda noite o sono esperava
Até que o misterioso trem o viesse visitar

Então um dia ele viu um homem vestido com terno e gravata
Chorando num banco de praça
E também o pipoqueiro
O dono da farmácia
O vizinho e o diretor da escolha

Ele não achava possível tudo aquilo
Um país inteiro com um hino
Pois o canário deixou a copa escapar
Mas será que o choro era só isso?

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

FINGIDA

Sendo tarde e tardando teu sono tranqüilo
Percebes que me encontra em tua cama
Tua prece e teus ouvidos
Fecha os olhos pra escapar de um pensamento furtivo
Que escorre dos teus olhos e ganha a rua
Pra procurar-me e saber se eu ainda estou vivo

Mas se encolhe na educação internada
E engole o meu nome soluço a soluço
Depois no dia seguinte passeia pela rua
Escolhe as bobagens nas vitrines
Pra fingir ao mundo que é tua
E tua e somente tua
A alegria que morava em teu peito
Mas que agora perambula comigo

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

ENFIM ADEUS

Tá bem
Não abra a porta
Não queira ouvir de mim
Que foi a madrugada quem teimou em me segurar

Afora
Eu fui sorriso
Eu fui uma voz
Eu fui embora de nós dois
Depois de tanto tempo sem saber de mim

Tá bem
Tá bem
Desta vez na quarta-feira a gente não vai se abraçar

Meu bem
Não abra a porta
Não espere um jeito
Pra gente misturar nossos tantos defeitos... Pra quê?

Afora
Eu fui cativo
Eu fui alívio
Eu fui meu pai e meu filho
Eu fui um rei mendigo
Sorrindo, sorrindo, sorrindo... sorrin

Tá bem
Pra quê?
Teu cinto forte em meu peito doeu
Mas passou

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

PAPEL DE OITENTA E OITO

E depois de ser comportado
Um gosto de velório na boca
O silêncio incomodado pelo excesso de gente enterrada nesse peito

Recado em papel de oitenta e oito
Enrugado de serpentear as rosas fechadas daquela madrugada

Vamos sorrir a modernidade
Com a visita ao dentista em dia
Esconder o rosto
E vestir outro com a palidez da estação

_É você quem define o que vai comprar
_É você quem define o que vai comprar, mas compre alguma coisa!

E depois de ser deportado
Da mesa caduca do boteco
O silêncio veio enfim me perdoar
E este peito pôs-se àquela gente toda ressuscitar

Agora há um riso lá fora a flutuar
E eu não estou aqui

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

UM POUCO DE SOL

Só vapor do café
Só resto de garoa
Desperte assim toda manhã
Escolha a marca da sua escova dental
Estenda os braços pra se esticar
A alma vê que é dia de escapar
Mas nem pense nisso
Pense que sempre existe um bem
Que sempre vão tentar
Que sempre vão mudar
A cor do lixo civilizado
Mas o cheiro é o mesmo

Só vapor do café
Só resto de garoa
Deixe um tempo pra você
Quando a água do chuveiro cair
Feche os olhos e respire devagar
Resista devagar
E seja acusado de bêbado
Acusado de vagabundo
Seja acusado de sonhar
De não ter o pé no chão onde eles gostam tanto de se arrastar

E vá passear por uma folha de papel
Vá passear por onde te faz lembrar
Que um dia não havia nada pra se comprar

E durma tarde esta noite
Durma bem tarde esta noite
Pra ter um pouco de Sol

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

IMAGINA

Imagina como sou
Enquanto escapo ileso da tua percepção entrevada
Teu coração platinado desafortunado de imaginação
Entende que ventou nas tuas gavetas?

Imagina como sou agora que sou
Meu pranto hoje raro
Meu riso quilométrico
Meu silêncio que te esquece
E desse esquecimento faz-se tua noite às claras
Insônia profunda