Não fala de sujeira
Você é de lavar a palavra e botar talquinho
De escolher a cor que cai certinho para o xale
É viciada no espelho vertical do teu armário
Mas diz que não liga... não liga
Não fala de sujeira
Enquanto pisa na calçada do teu condomínio
Enquanto na hora de caminhar ensaia um desfile
Não fala de sujeira
Se o banheiro do teu boteco cheira eucalipto
Se pra cada gota de pinga que desce a tua boca diz que foi um litro
Se você pede pelo número cinco
Se você dorme na rua pra dizer que é bonito
Então, puta merda
Não fala de sujeira
Que de sujeira você só conhece as letrinhas
sexta-feira, 11 de julho de 2008
NÃO FALA DE SUJEIRA
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Beto Renzo
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12:22
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terça-feira, 8 de julho de 2008
PRA PASSEAR COM VOCÊ
Esperam que eu não seja o que sou
Que eu minta
E finja que o sol tem sempre a mesma cor
E que eu veja amor num rótulo de perfume
Esperam que eu não seja o que sou
Que eu sinta a diferença
Mas diga que a chuva sempre cai igual
Que é uma bobagem pensar que os olhos sabem falar
Mas sou assim
A única coisa boa que sei fazer é sonhar
Não me custa dinheiro
Não aparece no jornal
Não pede que eu domine ninguém além de mim mesmo
E pra ficar por perto por um tempo eu inventei outra pessoa
Eu tranquei a criança que ria
E apresentei um homem sério e amargo
Então meu peito ficou tímido e educado
Batendo sem trovejar
Morto
Um zumbi
Eu repetia bom dia
Esperam que eu não seja o que sou
A nuvem pede ao sol pra parar de brilhar?
Então não posso fingir pra passear com você
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Beto Renzo
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13:16
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quarta-feira, 2 de julho de 2008
QUASE
Nem te levo
Nem te conto
Nem te peço
Nem te nego
O que você leva em teu bolso
E te cato
Bem
E bem gostoso
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Beto Renzo
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18:18
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segunda-feira, 30 de junho de 2008
BOTECOS
Eu não fico mais aqui
Não fico mais assim
Destilo essa rua com os olhos disfarçados de dóceis
E a alma debruçada sobre uma outra paisagem
A que não lhe cabe entender
Que bom duvidar do mundo sem nenhuma companhia
Sem nenhuma apatia de pensamento esperando um consolo
Zé, traz mais uma!
Eu não me entrego aqui
Não marco mais assim
Sambo meus suspiros no meu canto e só meu
No supra-ritmo que explode secreto no melhor do meu peito
Esse que bebeu o teu veneno
E não morreu
Que dom
Esquecer você de maneira tão comportada
Nem choro ou farsa
Só o olhar umedecido
Trazendo o mar pra dentro do bar
Traz mais uma!
Sento aqui sem vontade de falar
Sem reviravoltas a jurar
O suor do copo gelado
Isso que até pode ser paz
Sozinho do outro tempo
Eu não fico mais aqui
Não perco mais assim
Ajeito o cacheado do meu cabelo com uma mão
E atiro sem precisão a outra no vento pra acenar um adeus
Que bom
Duvidar de uma dor com tamanha propriedade
Engasgá-la no que sei de mim
No que sei da vida
No que vale a pena
Vivendo pra aprender que a gente não sabe de nada
E isso não faz mal
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Beto Renzo
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01:20
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A ESPERANÇA VS ALGUMA COISA
Teu lugar já não serve mais em mim
Onde eu fui?
Eu nem disse adeus!
Teu julgar já não sabe nada de mim
No meu olhar todos os dias são meus!
Eu já nem saio mais
Já nem durmo mais
Já nem sonho mais
Já nem ligo mais se dói
Meu lugar já escapa dos dedos teus
Onde eu vou?
Eu nem disse adeus!
Existe algo mais que eu sei que é meu
E o teu tosco remédio
Falso que seja seu
Eu já me vejo lá
Já nem choro mais
Já nem bebo mais
Já nem perco mais o sono
Teu lugar nunca foi meu corpo
Já se vai?
Eu bem te conheço!
Num cantar zoei do teu conselho
Já me vê?
Eu bem me conheço!
Eu já me deixo lá
Já me perco lá
Já me venço lá
Já nem conto mais as horas
E são tantas as que ganho
Se do teu sono me ausento
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Beto Renzo
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01:01
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sexta-feira, 13 de junho de 2008
CALENDÁRIO
Então a gente acorda
Cada um num canto
A cara tristonha tatuada numa manhã de outubro
Mas que dia é mesmo da semana?
Que frio é esse por dentro da meia?
Bola de plástico
Caderno de desenho
Arca de Noé
Copa de 82
A menina da primeira fila
O livro das perguntas
Vontade de trepar
Amor
Calor de 92
Ribeirão
Meira Junior
Ressaca
Risada
Apertar um
Seattle
Vinícius de Moraes
Adeus Mussum... Adeus Mussum
Iraque
Quase casar
Adeus
Sofrer por se bastar
Torres Gêmeas
Mais mentira
Sampa
Chorinho na praça
Ipiranga e garoa
E de novo o Vinícius
Pinga
Faz um tempo
Taquaritinga
Sozinho
Pai e Mãe
Tuttão
E Então a gente acorda
Cada um num canto do planeta
E a cara na TV que mente o seu dever é uma careta
Zuzu, hoje eu não vou trabalhar
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Beto Renzo
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18:57
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quinta-feira, 15 de maio de 2008
SE
Se toda a minha vida estivesse aberta à minha consciência
Dos recantos passivamente esquecidos nas estantes de minha memória saltariam as imagens
As vozes vertendo frases
Os cheiros
O gosto salgado da torrente de lágrima quando alcança o canto da boca
A quase dor abdominal de cair na gargalhada
Os nãos e os sins
As gripes
Os gols
Os amigos que a vida engoliu em algum lugar
Eu poderia olhar para o mapa do meu espírito e dizer:
Eis o mar onde sou meu quando dessa terrinha me perco
Eis o céu onde eu desmaio
Eis a lua que no sono eu ganho e de sonhar-me liberto me vicio
Mas mais ao escuro, longe do meridiano que pulsa
A sala vazia
A sala que escola torta construiu dentro de mim
Onde sou quieto, calado
Onde não sonho
E onde me dano ao usar o pomposo terno
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Beto Renzo
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21:29
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RÁDIO
A tarde já vai passar?
A tarde da minha vida?
Eu quieto fronte à vista
Vendo esse estranho pela minha casa perambular
E quando eu terminar de contar essa história quem irá notar?
O centavo esquecido no bolso da calça de ontem
O sopro do vento que entra por baixo da porta
O arranjo na política de supermercado
A bobagem cultivada na televisão
O barulho da chuva e quando acaba
Quem irá notar?
Então já vai passar?
A tarde da minha vida?
Sem que eu aprenda que preciso desligar o rádio e cantar a minha canção
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Beto Renzo
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17:45
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quinta-feira, 17 de abril de 2008
VAGA-LUMES
Lá onde agora você não vê
Eu te espero pra mais tarde
Num bocado de nem ter o que fazer
Um final da tua sacanagem
Um pouco de justiça para o meu peito
Este saco de pancada que não cabe na sua mão
Incineraram os vaga-lumes
As boas idéias acabaram?
E para as suas crianças o céu é solidão
A lua
Um buraco claro no certo
Esse moderno torto certo
Mas lá onde agora você não vê
Eu te espero pra mais tarde
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Beto Renzo
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16:56
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terça-feira, 15 de abril de 2008
MEU ANJO-MONSTRO
Liberta o corpo do pano da coberta
O sol pendurado a zero graus dos olhos
Boca maldita por dizer que nem entende o hábito comum
Que nem se compreende no hálito metálico do caixa automático
O que você quer mesmo saber?
O pico dos arranha-céus
Alçapão das almas
Vê que ele nem tem espaço pra voar dentro do terno azul
Ah
Esse terno azul tão alinhado
Tão comportado
Tão alinhado na contra-mão do meu sorriso
Somos tão mal interpretados
Somos tão mal aproveitados
Foi sábado... hein?
Monstro repugnado assoviando na sala dos bons meninos
Na ripa
Chutado, vaiado, fodido
Mas no riso o anjo
Cuspido a cara do sonho que não se caça com a caneta sobre o talão gelado
O que você quis mesmo saber?
Já foi passeando de olhos pelados
Pelas besteiras do mundo
Guardando em silêncio a beleza
Leveza e som... Hoje tá tudo apagado
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Beto Renzo
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15:05
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