Ah se te contarem depois
Se te falarem de mim
De como eu sorri por aí
De como eu ferrei com ternura
A voz dessa gente miúda
Que aponta o dedo pra mim
E se caga atrás da máscara
Ah o coração se mostrou
A Minha alma sem fim
No relógio da catedral
No café que eu engoli tão feliz
Pois é o que é solto assim
O fogo que minha pena desenha
Nas pedras de um país
Me jogue então com violência
Na tua mais triste gaveta
No teu mais fundo alçapão
Prometo habitar esse distante planeta
E se num dia qualquer
Teu cuidado tropeçar no meu nome
Olha que coisa mais feia
Minha vida não é mais teu dilema
Minha vida não é mais tua fome
Ah se te contarem depois
Se te falarem dos saltos
Meus pés brincando os asfaltos
Onde a vida voltou
Eu no porão dos teus olhos
Olha, a vida voltou!
Eu no sertão do teu gozo
Ah quanta coisa eu sonhei
Meu sorriso eu doava
Tantos abraços eu dava
Tantos amigos eu amava
Foi o carnaval
Foi o carnaval
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
FOI O CARNAVAL (O ANO DEPOIS)
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Beto Renzo
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ANA E O SOL
E quando vai pela calçada
Ascena de leve
Tatuagem na mão
Nenhuma palavra
Nenhuma alusão
E quando vai pela chuva
Decora as calhas
O som das poças
Nenhum remorso
Nenhum palavrão
E quando já se estica a manhã
Ana prende a respiração
Descasca as perguntas
Dos índios que moram no seu coração
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Beto Renzo
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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
A Maldade
A maldade usa saia
Espera por você depois da tua risada
Dá-te o que mais te falta
E só depois
Ali, bem na lua alta, a maldade já foi embora
A maldade usa saia
Primeiro luta a tua secreta batalha
Derruba a tua muralha
E só depois
Ali, bem na lua alta, a maldade já foi embora
A maldade usa saia
E você na paz do teu colo
Entre as coxas
Entre os braços
No pescoço
Na nuca
No cheiro pedantemente certo
A maldade usa saia
E você desaba naqueles seios
O calor da cama
O odor sacana
O gosto
A boca pedantemente carnuda
A maldade usa saia
Fica nua com cara de coitada
Fica nua e você já nem pensa mais em nada
A maldade pede o teu sobrenome
Te promete um filho
Cuida da tua febre
A maldade tem um olhar leve
E você nem percebe que são olhos de quem já vai embora
A maldade te esquece
E nem olha de volta pra ver se você ri ou chora
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Beto Renzo
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23:47
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SÓ UMA CARTA
Eu passeio por aí
De um telhado um ponto vão
De uma janela um estranho
De cima
Lá pra cima
Lá do alto de onde despenca cada alma
Um risco luminoso de vida
Eu nem te condeno por não saber o que sou
Quero livre o que levam de mim
Eu nem me explico
Dê-me um espaço no teu tempo
Dê-me isso que eu desconheço
Que te dou o meu coração
Eu passei por aí
Era o perdão na mão oposta
Era o carnaval aos olhos de uma criança
Era riso
Tão mais riso
Tão mais preciso que a tranca nas portas
Um dilúvio de alegria
Eu nem te condeno por não lembrar o que sou
Quero teu o que quiser de mim
Eu nem me explico
Dê-me tua insônia mais aflita
Dê-me uma saudade bonita
Que te dou uma oração
Eu sumirei por aí
Num balcão um nome antigo
Num lugar aquilo invisível
Antes disso
Bem antes daquilo
Antes dos móveis e dos vidros
Antes do concreto
Na grama que meus pés corriam
Quando o amor não me levava assim
Quando o amor ainda não era doido por mim
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Beto Renzo
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22:42
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terça-feira, 1 de janeiro de 2013
UM DESSES
E se você nem sempre sorri num adeus
Se você retruca a vida embalada e pronta
A cesta de combinadas surpresas
E se você é um desses
Enquanto eles te dão a culpa
Enquanto eles te dão a lista dos teus pecados
Você dá ao mundo
Incansável e livre
O teu absurdo coração
E tudo o que há na plenitude da tua singular missão
E se você às vezes chora no meio do dia
Se você aceita o refúgio sábio da lágrima
Pois a tua força é a tua imperfeição
E se você é um desses
Enquanto eles contam as moedas
Enquanto eles compram o riso com o cartão
Você vai ao fundo
Incansável e livre
E volta cada vez mais certo daquilo que é a tua missão
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Beto Renzo
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terça-feira, 4 de dezembro de 2012
NEM TUDO É TÃO POUCO ASSIM
Enfim eu voltei
O perdão na doçura dos meus olhos ácidos
O meu sangue torrencial feito tua praia
Minha presença absurda
Vagabunda e sem lugar
A solidão que às quatro perambula pelo jardim
Pois a gente sabe
Sim, a gente sabe
Nem tudo é tão pouco assim
Vê
Eu cheguei
E na mesa a conversa já morreu sorrindo
Na cama o amor já se cobriu naquele livro
Que ninguém jamais leu
Ninguém jamais o viu
Na sala inoxidável eles temem o que você traduz
Rogam suas preces à tua partida
Cantam à tua desolação
Pois ficar à porta olhando a rua enquanto a alma se atrasa
É pra eles uma puta falta de educação
Vamos lá
O que é a fúria dos que dispensam fácil acomodação?
Quando o monstro rosnar não se esconda
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Hoje não! Hoje não!
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Beto Renzo
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quarta-feira, 28 de novembro de 2012
VOCÊ
Você
Que se posta agora a frente do meu ser
Que calcula
Que sabe o valor dos percentos
Você que ri aquilo que deveras chora
Que olha pra mim
Renega a minha criança e diz:
Vá embora!
Agora não é hora!
Você
Que hoje priva meus pés da textura da rua
Que me veste
Que me dá teu veneno maduro
Você que é o espelho que me machuca
Que me afoga
Rasga os meus desenhos e diz:
Vá embora!
Agora não é a hora
Você
Que esqueceu daquele tempo
Que esqueceu do que eu queria
Esqueceu o que eu sentia
Se era noite ou era dia
Se era dor ou fevereiro
Pra onde foi o meu mundo inteiro?
Você é triste
Eu sou aquele ainda
Eu não sou teu prisioneiro
Você dormiu todo esse tempo em silêncio
Esperando
Espreitando
Caçando o meu sorriso
Bebendo do meu choro
Fez o que com o que era livre?
Veste teu terno e olha pra mim
Olha a lua e olha o sol
Vai embora de mim
Vai embora de mim
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Beto Renzo
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segunda-feira, 12 de novembro de 2012
O Diário de um Espantalho
Eu vou assim
Por aí
Eu sei o que dói em você quando os teus olhos me revelam
O gosto que a tua boca desconhece
O ponto cego que o teu coração não vê
Sei lá, não há luz alguma nas tuas velas
Claro
Sim, sou eu
O farrapo que atravessa a tua festa
Mas não vejo ninguém aí sorrindo
Não vejo uma só cor na tua futura fotografia
Pra onde?
Pra onde você corre quando a tua verdade te assombra?
O carro
A bebida fina
A luz estroboscópica
Seu caráter agachado no escuro
Cuidado, aí vem São Francisco com os olhos de raio x
Aí vem São Francisco com seu violão
Tá bom
Eu prometo não falar mais sobre isso
Eu vou assim
Por aí
Você diz que acha divertido a bagunça que há em mim
Por que então eu nunca te vejo sorrindo?
Por que você fita o espelho e continua mentindo?
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Beto Renzo
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segunda-feira, 16 de julho de 2012
QUARTO ESCURO
E se a gargalhada é a pedrada na etiqueta de vidro?
E se mesmo depois de assassinado o sonho respira?
Se o gosto solitário não tem o sabor que a canalha acredita?
E se a lua é um retrato nos olhos dos bêbados?
E se o riso é a saudade que negam os que se dizem perfeitos?
E se a indiferença é a maquiagem dos abraços viúvos?
Se a solidão é estrada dos poetas?
E se a pressa for a desculpa dos tristes?
E se a falsidade for a puta dos ocos?
E se a comodidade for a mãe dos covardes?
Se o choro for a força dos santos?
E se eu fosse menos maluco
Se eu fosse menos distante
Teria o gosto nu das mulheres de estanho
Teria a vida pequena
Uma foto numa estante
E se a música é uma prece desavergonhada?
E se a alegria é o dom dos desajustados?
E se a compaixão é o segredo dos sábios?
Se o céu é o quintal de todas as crianças?
E se eu fosse como tantos outros?
Você ainda me detestaria com tanto carinho?
Se a minha calçada é essa tão distante da sua
Por que teus olhos ainda fazem berrar os meus sinos?
E se este meu amor que carrego
Surrado pelo mundo
Pisado no fundo
For o analgésico do meu coração sem parafusos?
Mesmo assim eu não prestaria?
A luz é um absurdo no universo de um quarto escuro
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Beto Renzo
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domingo, 29 de abril de 2012
É FODA
Quando chega assim
A cama pronta pra ser desarrumada
A noite pronta pra acordar em mim
É foda a vontade
O quadril que me chama
O quadril que reclama minha mão
Quando chega assim
O amor uivando pelos meus olhos
O tempo andando sem rumo em mim
É foda a saudade
Meu coração indomável
Meu coração inflamável por aí
Quando chega assim
A mentira com sua roupa rasgada
A desculpa com sua voz engasgada
É foda a virada
O copo que vai até a boca
O copo que cai a mesa sem uma gota de cachaça
É foda a cidade
Quando a alma voa em todas as suas calçadas
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Beto Renzo
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