segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Os teus

Você não tem que soprar minha tristeza pra lá
Não é isso que quero de você
É meu peito entre o abandono e a leveza de cá
E é mais solitário do que se vê

Você não tem que burlar meu silêncio assim
Ele não é um muro pra você
É meu olhar sobre o mundo fora de mim
Enquanto você se ocupa com a tv

Mas quando ele se vende e dói se entregar
Ele diz que é só mais essa vez
E ele se vende por uma foto de frente pro mar
Diz que é só mais essa vez

E seus filhos sempre irão esperar até tarde
Seus amigos ficarão sempre pra mais tarde
Ele diz que é só mais essa vez
Ele diz que é só mais essa vez
Até o adeus derradeiro

Você não tem que dar um sorriso educado
Isso nunca fica bem em você
Eu não quero as coisas do teu mercado
Eu mastigo o que você lê

Mas quando ele se vende e dói se deitar
Ele diz que é só mais essa vez
E ele se vende por uma foto naquele jantar
Diz que é só mais esse vez

E o seus olhos sempre irão embaçar
Feito um sonho sempre a deriva num mar
Ele diz que é só mais essa vez
Ele diz que é só mais essa vez
Sem perceber que um dia a multidão tem que passar... levando os seus

Barro

Quando já adulto eu vi o dilúvio nos olhos de meu pai
Vi a ordem com hálito de gás de pimenta e esterco de cavalo
Os cacos rangendo o asfalto da cidade
Como se fosse permitido apenas aceitar
Como se fosse digno não sonhar com porra nenhuma

Senti a destreza dos covardes com suas desculpas
Suas músicas cheias de rima fácil
Pois algo precisa parecer belo
Mesmo que elo entre o ser e sua alma seja proibido

Quando já adulto eu vi que a moda é vestir um muro
Vi o abraço ser algo absurdo quando o abraço for o remédio
Pois é preciso ter ordem
É preciso ter o sorriso de barro
Mas sou apenas um homem e faço isso tudo errado

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Por Hoje

Quero te olhar sem pressa
Pedir desculpas por não saber quem eu sou
Quando ando solo pelo mundo transfuso do meu coração
Quando navego perdido as tempestades da minha confusão
Perdão

Quero te olhar sem pressa
E um dia hei te encontrar no meu olhar
Quando este estiver ébrio da imensidão

Estaremos todo esse tempo distantes depois de tudo o que foi bom
Mas nos encontraremos de novo
Teremos a reprise bendita da nossa estranha condição

Por hoje, perdão

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Sobre Ontem

De noite fitei o mundo com meus olhos de água ardente
Meu sorriso confidente tatuado pelo salão
Eu era amplo e só então
Eu era só minha contramão

De manhã fitei o mundo com meus olhos de água tônica
Minha sombra lacônica derramada sobre o chão
Eu era pleno e só então
Eu era enfim o meu perdão

Criança, minha criança
Me tire os pés do chão
Me faz morrer pro mundo
Morrer de ti

De rir tão fundo até chorar
De uma paz ao se calar
Feito quando eu vi o mar pela primeira vez
Quando perdi o sono pela primeira vez

Quem é que sabe de mim pra me julgar?

Quem é que são vocês?

sábado, 6 de dezembro de 2014

Papo de criança

Ei
Queria contar do sonho que eu planejei
Quando a insônia me leva pelo mundo
Você me diz que o mundo é grande, eu sei
Meu coração é um furacão sem dono


Lá em cima a lua é só a lua e é tudo
Lá em cima a lua é a lua e tudo é fundo
Saudade me tira o medo do escuro
Saudade me tira o medo do escuro


Ei
Queria contar do amor que eu inventei
Quando me faltou o amor do mundo
Você me diz que sou estranho, eu sei
Meu coração é um furacão sem dono


Lá em cima a lua é só a lua e pronto
Lá em cima a lua é a lua e tudo é fundo
Saudade me diz adeus sem culpa
Saudade me diz que a minha alma tá solta

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Maquiagem

Ela nem sabe enquanto passeio no seu mundo fácil
Enquanto sorri dolorosamente o ensaio
Quando eu rondo a noite atrás da vida plena
Quando eu queimo as folhas da etiqueta

Eu torro os olhos nas coxas bem feitas
Deixo meu coração em mãos desengonçadas
Que não sabem segurar uma alma alheia
Só sabem guardar a ferrugem das moedas

Ela nem sabe enquanto compra o sonho da prateleira
Enquanto pinta no rosto a mulher certa
Quando eu me acabo no ringue das perguntas
Quando eu sangro a teimosia dos poetas

Eu danço e choro uma alegria mais sincera
Entrego aos homens a lataria perene e seca
E a Deus reservo minha melhor conversa

Ela nem sabe enquanto se ocupa com o alvo dos meus olhos
Quem é a raposa
Quem é a Cinderela

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Mercado

Há algo e eu sei
Que eles não vêem
Há algo e é o meu bem
Há algo

Há algo e eu sei
Que o dono é ninguém
Há algo nosso, meu bem
Há algo

Na cara de quem aceita
O contracheque fácil
Pra ficar calado
Diante do estrondo

Que varre a madrugada
Quando as almas são quebradas
Na máquina do mercado
Há algo  e está errado

No hálito de quem reza
A propina assombrada
Enquanto ali na esquina
O sonho se ferra

E varre a madrugada
A alma espedaçada
E a máquina do mercado
Sempre atenta

Mas aguenta, meu bem
Há algo que nos espera
E há de ser o algoz da máquina

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Aqui entre nós

Aqui entre nós
Entre os restos da nossa batalha
Entre as pedras que me caçam pelo ar
Você sabe que eu não vou parar
Você sabe


Aqui entre nós
Enquanto os olhos não nos vêem
Enquanto o mundo se ocupa com o futebol
Você sabe que eu não vou tombar
Você sabe


A cada golpe seu contra o meu riso
A cada amor meu que você sufoca
Eu permaneço de sonho ileso
Eu sigo com as palavras da minha própria boca


A cada insônia sem qualquer amigo
A cada estranheza diante da vida
Continuo a ser meu próprio abrigo
Continuo a driblar tua tristeza foda


Aqui entre nós
Você sabe, você sabe

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Antes

Antes de dar um carrinho na tristeza
Eu faço de mim um retalho das vidas que tive
Como a leveza de uma brisa sem nome
Como a destreza que nos impera quando choramos sem culpa


E um carnaval me alcança
Um amigo e sua saia branca
O riso sem juros
O coração sem furos
Antes de qualquer paixão


Eu fiz uma reza sem rima
Deixei o meu nome numa esquina
E se um dos meus por ali passar
Eu sei que ele vai cantar:


Salve a vida intensa
Salve o mistério das novenas
Que ali se passavam tão sérias
Enquanto eu me bastava com minhas idéias


Salve a marcha feliz
A alma livre de qualquer cicatriz
Não dou minha arte pra essa platéia
Eu amo tanto e você nem faz idéia
Eu amo tanto e você nem faz idéia

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Fica Esperta

Essa tua cara de concreto
Olho pra cima e esse teu dorso reto
Seus vidros belos
Cheirando a terno e gravata

Essa tua gente cronometrada
Essa tua noite hoje adestrada
Psiu, psiu
Nem tua garoa vai mais pra rua

Fica espeta, menina
Tão dizendo que você já foi de vanguarda
Mas agora só reza emburrada

A cartilha dos que vivem só com hora marcada