quarta-feira, 11 de maio de 2016

Te pego lá fora

Você me espera além da soleira da porta
Além da segurança do meu bloco
Arma a sua jogada
Prepara a sua armadilha

Mas se descuida
E se lambuza com a lama da sua própria bota

Você me espreita onde termina a minha frase
Onde respiro na minha pausa
Espalha o seu veneno
Cozinha o seu julgamento

Mas se descuida
E se lambuza com a lama da sua própria bota

E faz tempo que te espero
Faz tempo que incentivo qualquer coragem sua
Faz tempo que anseio pelo seu desafio
Pelo seu convite para que me enfrentes

É tão chato esperar pra quebrar a cara da tua falácia

Mas você recua
E se lambuza com a lama da sua própria bota
E se borra
E se borra
Mas espero
Eu te espero pra qualquer hora

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Vamos Vamos

Vamos recuar o abraço
Vamos ficar só num aperto de mãos
E dominar o nosso peito
Adestrar qualquer sentimento que combata a calculadora


Vamos recolher o riso
Vamos odiar com uma boa educação
E afogar o perdão
Assassinar a ponderação que desafia o gráfico percentual


Vamos desmaiar num susto fingido
Numa lágrima registrada
Enquanto no infinito deserto lucrativo
Dormem os ossos dos nossos irmãos


Vamos comprar o discurso
Vamos ficar calados no meio do pranto
Pois haverá o espólio podre
Haverá o hálito de ferrugem das hienas da corporação


Vamos desmaiar num susto tingido
Numa repulsa ensaiada
Enquanto limpamos dos nossos dentes

Os sonhos mortos dos nossos irmãos

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Moleque

Ninguém dali dava nada pra ele
Ninguém sabia do mundo dentro dele
Pra toda a gente
Pra toda a paróquia
Só um moleque riscando parede

Ninguém olhava além do retrato
Ninguém ouvia além da sirene
Quando era guerra
Quando era feriado
Só o moleque brilhando pra gente

Mas veja que chove
E depois vem o sol
Veja que dorme
E depois corre o mundo
Essa coisa que o adulto já esqueceu
Aquilo que era tudo e também era eu

Moleque, moleque
Como a gente se perdeu?
Moleque, moleque
Agora o tolo sou eu
Agora o tolo sou eu

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Irmão

Eu me guardo
E te guardo uma estória
A insônia da parede que te devora
A fenda risonha
Onde escapamos livres para a noite
Para o sol noturno
Para a pluralidade da rua soturna
Deserta mas jamais absurda

Eu me guardo
E te guardo numa história
A bebedeira inapta que nos espera na curva
O coração intacto
Pronto pra ser esmurrado por quem ele guarda
Pois tudo é antigo
Pois tudo hoje é novo e tem pressa
Aprender tudo é uma festa

Eu me guardo
E te guardo noutra história
Não dá mais pra moer aquelas noites agora
Até a saudade já foi embora
Eu me guardo
Eu te guardo
Pra toda hora

“Venha ver como dão mel as abelhas do céu”...

segunda-feira, 4 de abril de 2016

De lado

Está aqui e ali
Mas ninguém vê
O dedo em riste de tanto temer
Beber demais o café conveniente
E nem ligar se o que está por baixo
É chão
É lama
Ou é gente

Parti eu daqui
E a minha fé
Escolhi a escola que é se perder
Cavar um poço dentro de si
E separar dos meus pedaços
O que é meu
E o que é do mundo

E é logo ali
É tão ao lado
Como o ré do mi
Tão encostado
Mas desde sempre fomos educados
E ao esbarrar com a nossa alma

Sempre viramos de lado

domingo, 3 de abril de 2016

Estupidologia

Agora sim
É desta vez
Papai dizia:
O mundo é de vocês!

No meu tempo a gente sofria
No meu tempo não havia tempo
Pra dizer bom dia
Pra ficar atento à quadrilha hereditária

Mas espere um pouco?
Que porra é essa?
Quem entregou a chave do mundo aos abutres?

Agora vi
É outra vez
A tv saliva:
Eu canto com vocês!

No hemisfério a gente se espreme
No hemisfério a descarga liberal
Mas todos felizes
Todos empenhados em se lambuzar

Mas espero um pouco?
Que porra é essa?

É a cruz bugada que chega sem vibrar

terça-feira, 29 de março de 2016

De volta

Voltaria
Sim, voltaria
Encontraria de novo, pela primeira vez
Meus grandes amigos
Vizinhos
Cantos e botecos
Os barulhos da noite
O sol forte
O skate
O açoite que era segurar um riso
O piso frio da sala
A porta destrancada
A coragem

Voltaria
Sim, voltaria
Conheceria de novo, pela primeira vez
O primeiro acorde
O vinho
Livros e bêbados
A canção forte
O copo
O meu rosto arrombado com um riso
O caso do amigo
A porta destrancada
Pai e mãe dormindo sob o mesmo teto

Voltaria,
Sim, voltaria
Avistaria de novo, pela primeira vez
O quadro negro
O giz
Desenhos e silêncio
A zona na cabeça
O futebol
O meu coração espatifado
Que cuidadosamente eu fui colando...
Átomo por átomo

domingo, 13 de março de 2016

Lembrar

Parece ser meu eterno erro
Jamais entregar tudo de mim
Jamais mostrar todas as salas da minha alma
Apenas pra ter algo somente meu


E quem me detesta me chama de estranho
E quem me ama me acusa de ter segredos


As noites que jamais terminaram
As notas da Barbarella
A amizade forjada a risos e pontapés
Agora solidão… solidão de si mesmo.


Os poetas da Bossa Nova…
Os fantasmas do Grunge…
Tornei-me um puto… no conformismo absoluto
De que tudo que se sonha jovem é falta de experiência.


Parece ser meu eterno erro
Levantar-me para um café
Levantar-me para a vida

E lembrar… e lembrar… e lembrar...

sábado, 5 de março de 2016

Que se fodam os poetas

Solidão não tem lugar
Não escolhe rosto nem parentesco
E não importa nada
Você é o padrasto cruel
O assaltante que rouba a alegria da casa

Solidão é o amigo invisível que o poeta carrega
Ela o alimenta
Leva ao trabalho
Ao dentista
Ao boteco e a novena
Silenciosamente
Pacientemente

Eles amam os poemas
Mas detestam os poetas

O poema é imortal
É puro e perfeito
É lindo
É cool

O poeta é louco e vagabundo
Sozinho e problemático
Triste e perdido
É estranho
Não é bom partido
Não é confiável
Não tem os pés no chão
É infantil
É tolo e sonha demais

Eles amam os poemas
Mas detestam os poetas

Os poemas são divinos
São sábios
Palmas e lágrimas aos poemas
E que se fodam os poetas

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Hoje eu lembrei de rezar
Escondi meu corpo debaixo do cobertor
Esperei a minha assombração
Mas ela estava presa no trânsito

E enviou uma cara triste
E eu fiquei triste também

Hoje eu lembrei de sorrir
Saltei pra encostar no galho mais alto
Guardei o foda-se para o final
Mas ele estava cansado do trabalho

E enviou um coração partido
E e o meu se partiu também

E o larápio diz:
Vamos crescer
Vamos sorrir peróxido de hidrogênio
Vamos rir pois chorar é feio
Vamos vestir qualquer besteira pra dizer que somos verdadeiros

Hoje eu lembrei de você
Vesti a tua alma pra olhar o mundo
Esperei a hora da escola
Mas a escola era um retrato no meu porão

E enviou uma cara puta
E eu fiquei puto também

E o larápio diz:
Vá crescer
Vá beber da malícia dos infiéis
Vá rir com a sua presa
Vá vestir qualquer besteira e jamais perceba...

Jamais perceba o quanto eu estou te roubando