quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Abrigo

Pedras
Nada mais do que pedras
E muito mais do que isso

Fritando no sol da minha infância
Minha alma na dança da vida
Sem a migalha dos falsos risos
Sem jamais do medo ter bebido

Pedras
Nada mais do que pedras
E muito mais do que isso

A privacidade onde o bom sonho habita
O buraco negro para o paraíso
O que eu buscava além dos cristais?
O que eu sabia que hoje já tenho esquecido?

Mas surge enfim o veneno furtivo
Com uma mão estendida oferecendo a modernidade como cura
E com a outra assaltando teu rubi vivo
Inundando teu sono de podre bebida
Botando os pesadelos para matar a sede no teu silêncio aflito

Só não aperte os olhos
Não, não aperte teus olhos
Atrás de ti teu exército caminha
Pois mataram teu sorriso do lado de fora
Mas não alcançaram a criança que ainda te abriga

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Ainda Volto

Eu fecho os olhos pra te alcançar de novo
Meu rosto é triste mas ainda cheio de esperança
Meus dedos não te tocam
Mas em meu peito tua leveza e teu cheiro de risada

Minha voz sem ritmo e também sem desespero
Entro por essa porta e àquelas tardes estou de volta
Na mesma casa as paredes rabiscadas
E finalmente minha alma se joga na sua loucura preferida

Ainda volto
Eu apenas fecho os olhos
Ainda volto pra perder toda essa tralha
Sempre e sempre mais leve
Até soltar minhas amarras

Eu fecho os olhos e teu sino chama alto
Meu rosto é moço mas já fechado feito um forte
Em minha boca o silêncio é o que se nota
Mas em meu peito as palavras nascem cheias de força

Numa mesa daquela velha e perdida escola
Meu nome escrito com uma dor ainda fresca
Minha alma... apenas uma ambição...
O papel... o rio tórrido que ainda descreve a minha estrada

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Anedota pra sair de fininho

Diluído num minuto cansado
A porta do mundo fechada
É só o meu peito
É só no meu peito

Num segredo que sopra o vento
A educação que foi treinada
E tudo tão feio
E tudo tão feito pra durar só o tempo da foto

Que pecado eu fui cometer quando tive medo
Jogar os olhos por cima do muro
Assumir a guerra interior
E ao abrir de novo os olhos
Ver o corpo apartado da órbita deste mundo

Vou com calma ser absurdo
Vou com calma ser o chato em silêncio no canto da festa

É o que resta posto que o mesmo vinho já não me deixa mais bobo
O mesmo vinho já não me torna irmão dos vampiros sem rumo

Eu não posso fugir e nem quero
Já não tenho casa no mundo
Meu telhado é aqui dentro

Diluído num segundo cansado
O sono é o privilégio que eu não tenho
É só o meu peito

É no meu peito o lugar que ainda não compreendo

sábado, 2 de junho de 2018

Natal

Existe um lugar tão pequeno
Cheio de gentinha tão pequena
Com um vazio tão grande
Onde o cheiro de futileza se espalha
Onde a vida alheia é o esporte
Onde o louco é falso... e bobo... e burro...
Pois não é louco... é um trouxa de sarjeta
E a conversa tão fácil
E a covardia tão dócil
E a caixinha de desculpas sempre toca
Pronta pra brilhar a cada vômito

Esquecem que ser homem é ser criança e não moleque
Pois o caráter ali apodrece com a idade
E já faz algum tempo
Que do fedor já estão acostumados
De fato é de dar pena
De longe eu me sinto agraciado

Eles se seguram no buraco da lama
Se abraçam e se afundam
Pra garantir que todo mundo se lambuze
E nas placas platinas
Os sobrenomes já estão enferrujados

No calendário das tragédias anunciadas
Esses bostas fazem fila
E choram na cabeceira do caixão
Pois é mais fácil o choro que a luta
E pro coração pequeno a vida é feito a televisão
Esse coração uva passa

Tratei logo de pular fora
Não quero que me achem simpático
Não lá
Nunca mais

Mas me dói ver quem eu amo perdido por aquelas bandas

sábado, 9 de dezembro de 2017

Labirinto (versão 2)

Percebo que ainda não é a hora
Mesmo agora que a bomba acordou
Derrubou as paredes com suas palavras
Transbordou aquilo que eu jurava ter esvaziado

Debruço ainda sobre esses ombros
Tenho apenas um sussurro pra gastar
Abuso da noite guardado dentro de casa
Mas lá fora deixei o meu recado por toda parte

Pois ainda não é a hora
Ainda não é a hora
Ainda não é a minha hora de voltar

Recebo esse desprezo com um sorriso
Bem agora que a bomba acordou
Descarrilou a felicidade planejada
Esparramou meus pedaços no olhar de quem não mais me vê chegar

Mas ainda não é a hora
Ainda não é a hora
Ainda não é a minha hora de voltar

E como isso me dói
E como isso me chama... esse caminho torto...
O labirinto das minhas palavras
E ainda tenho tanto
ainda tenho tanto aqui dentro... guardado

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Aqui em Marte não tenho vizinhos

Aquele era o louco apontado
Todos ali cochichavam sua aparência...
Sua risada e principalmente os seus lamentos
Todos ali esputavam mal daquele...

Mas poucos sabiam que a estrada confortável que trilhavam havia sido desbravada por ele

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Aceno

Deslizo os meus olhos
Deslizo o meu desejo pra fora do teu altar
Desfaço o teu mistério
Desando o caldeirão onde colocava minha vontade pra nadar

Agora onde passo tudo teu já é antigo
Tudo teu já é bobo demais
E não mais me afoga o teu jeito de me faltar
Se com só uma mão eu te machuco

Com uma mão pra eu me mandar
Com uma mão pra eu me mandar

Deslizo as minhas mãos
Deslizo o meu corpo pra fora do teu lugar
Desarmo a tua armadilha
Desando pela vida sem tua permissão pra me abençoar

Agora onde passo tudo teu já é vencido
Tudo teu já é simples demais
E não mais me aperta o teu jeito de me olhar
Se com só uma mão eu te assusto

Com uma mão pra eu me mandar
Com uma mão pra eu me mandar

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Farra

Eu me preparo
É quando percebo
É quando me deixo livre
Enquanto você expulsa todos os meus sonhos da sala
Tranca a porta e se arruma pra minha hora assombrada

E lá nos cantos da cidade a minha voz despedaçada
As crianças tocando fogo na vil papelada
As gravatas murchas ao chão
A nova ordem enfim minguando pelo ralo da história

E eu me preparo... pra toda essa divina farra.

Eu me aquieto
É quando percebo
É quando me torno forte
Enquanto você espreme meu amor em latas de supermercado
Tranca a porta e cospe tua fome sobre a minha estrada

E lá nos cantos de cada alma a sorte diluída
A ar desacorrentado solto pelas ruas
O sol visitando qualquer janela
O déspota enfim minguando pelo ralo da história

E eu me preparo...

Ah, como eu me preparo... pra essa nossa divina farra.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Olhe a hora

Olhe a hora
Atravesse a porta
Apresse o passo
Acalme a alma
Encoste os ouvidos na estrada
Como quem espera ouvir um trêm se aproximando
Mas você sabe mais do que ontem
O mundo está girando
O mundo está girando

Olhe a hora
Escancare a sorte
Tome um caminho
Torne-se o teu norte
Abandone a farra burlesca das nove
Como quem finalmente bagunçou a vida pronta
Pois você vê a caricatura boba
O mundo está girando
O mundo está girando

Os lobos foram castrados
Quem toca o puteiro são as ovelhas
Quem toca o puteiro são as ovelhas
Como o planejado
Como o planejado
Como o planejado
Como o planejado
Só que não...

Olhe a hora
Atravesse a sombra
Apresse o grito
Alcance a alma
Encoste os olhos no que dura
Como quem perdeu o trêm por escolha própria
Pois você sabe mais do que ontem
E o mundo está girando
O mundo está girando

Os lobos foram adestrados
Quem toca o puteiro são as ovelhas
Quem toca o puteiro são as ovelhas
Como o planejado
Como o planejado
Só que não...

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Asfalto

Já me procura e nem é tão tarde
Estou no ar
Estou no jardim das pedras
Tossindo meu primeiro cigarro
Assoprando o que sonho da sala para um lugar mais privado

Já me procura e nem é tão tarde
Estou na rua
Estou no asfalto que ferve em janeiro
Escolhendo as primeiras palavras
Encolhendo o quanto posso pra caber dentro do mundo

Já me tortura e nem te dei um nome
Estou na sol
Estou no mapa de minha pele descascada
Regressando ao encontro inevitável
Desconstruindo a maldade pra chegar com a alma mais calma

Estou na lua
Estou no barulho do fantasma que desceu a rua
Estou na saudade disso
Daquilo e de tudo
Eu sou a saudade nesse intervalo de vida

O teu asfalto