quarta-feira, 23 de setembro de 2009

TUA ROUPA


Teima
Teima até quando eu deixar
Até que o mundo acabe
Até que a vida tombe
Na mentira espessa e breve que você tentou contar

Teima até quando eu quiser
Até que as flores morram
E outras novas subam
Sem que suas cores balancem quando o carnaval vier

Eu queimo em você
Desse fogo você não se poupa
Quando o labirinto castanho dos meus olhos vem tirar tua roupa

Teima
Teima até quando eu mandar
Até que tua paz desmonte
Até que a lua desbote
De tanta vigia tua tentando no céu me encontrar

Eu moro em você
Isso você não arranca à tapa
Então espera comportada que prometo tirar a tua roupa

ATÉ LÁ, ATÉ NÓS

Vê lá que agora a luz colocou o pijama
No escuro da tua casa o meu fantasma
Chove o que era o meu corpo no teu lençol
Ferve a minha voz dentro de você feito anzol
Fisga o sereno da rua
E derrama bobagens da minha boca na nuca tua

Você me rabisca com cor de mágoa
Guarda pedras nos bolsos da tua calça
Quando será que vou passar pela sua rua?

Você afoga meu gosto num café
Queima meus beijos dentro de você
Quando será que vou adoçar a tua amargura?

Quantos quilômetros dentro do peito a gente guarda?
Quantos anos passam numa única madrugada?

Vamos ver isso depois
Até lá, Até mais
Até lá, Até nós

terça-feira, 15 de setembro de 2009

O CARNAVAL JÁ VAI CHEGAR



Olá Oteb
Fiz agora um quintal pra você brincar
No pescoço a companhia de um santinho
Na alma a cicatriz daquele mudo carinho
Mas agüenta
O carnaval já vai chegar

Olá Oteb
Fiz agora um céu pra você se balançar
Lá se vai o barco na enxurrada da rua
Lá se vai o retrato se pendurar na lua
Mas agüenta
O carnaval já vai chegar

O carnaval já vai chegar

Olá Oteb
Fiz agora um café pra você acordar
No bairro não há mais bancos de jardim
No sono não há mais lugar pra mim
Mas agüenta
O carnaval já vai chegar

Há algo teu em algum lugar
Uma paz repentina
A luz que vence a cortina
Há algo teu em algum lugar
Serpentina! Serpentina!

Olá Oteb
Fiz agora um drinque pra você mergulhar
A tristeza agora é uma educação
A tristeza agora é só educação
Mas agüenta
O carnaval já vai chegar

O carnaval já vai chegar

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A MADRUGADA QUE EU DOU DE PRESENTE

Vago na bruma do apartamento
A hora escorreu pelas calhas
Embebedou-se e não deu as caras
Os tacos em retângulos brotam pelo chão
Um enxame de estrelas vem dormir na minha mão
Vão-se os fantasmas dançar no firmamento

Largo no céu hoje o riso do meu coração
Sobem até aqui os contos do paralelepípedo
Escapa das árvores um cochicho ávido
No jardim do museu a quadrilha das flores se contorce
A água esverdeada engole as gostas que a chuva tosse
Fosse a calma uma almofada despida de ilusão

Segue ela
A sua espera é uma carta com letras de fogo
Que confessa
Nem mirrada nem espessa
A manhã tóxica que não engasgo
Feito que um fantasma agora eu também sou

Eu também vou
Pela janela meus olhos feito borboletas
Caçam a moça visitando portas
Frestas
Ruas secretas
Ela em seu sono nem pressente
A madrugada que eu dou de presente

Faço a festa no dorso do apartamento
O vapor do café escapa
Sobe as escadas do ar da sala
Na fotografia as cores já roncam o seu sono
Quinze andares abaixo um carro espera seu dono
Pleno de si o silêncio trinca-se no soluço de uma moto

Segue ela
O meu rosto é o que teima seu olhar caprichoso
Que suporta
Que è a derrota
Da manhã tóxica que não uso
Feito que um fantasma agora eu também sou

Eu também vou
Pela janela meus olhos
Meus braços e ombros
Minha alma que deságua
E ela em seu sono nem pressente
A madrugada que eu dou de presente

PEGO DEPOIS

Fique com as fotos
Com as toalhas
Com o gosto de nunca mais
As migalhas
As muralhas
O meu nome na sola dos teus pés

Fique com os pratos
Com as paredes
Com as cortinas na tua cor
As nossas tardes
Nossos alardes
Apague do corpo o meu suor

Que seja tão bonito assim
Que a tua vida tenha mil sóis
Mas esse em teu peito que espera por mim
Eu passo pra pegar depois
Eu passo pra pegar depois

Fique com a prata
Com teu trago
Com teu humor todo confuso
O estrago
O amargo
Minha boca embebedando teu juízo

Fique com o carro
Com o cobertor
Com o rosto maquiado de alegria
O tremor
Engasgue o amor
Com as mãos dadas ao vento todo o dia

Que seja tão calmo o céu teu
Que o mundo acredite no que você diz
Mas esse em teu peito que é todo meu
Eu passo pra pegar depois
Eu passo pra pegar depois

Fique com a cama
Com as gavetas
Com o tempo parado na garganta
Tranque a alma
Viva o coma
O olhar cativo de mim quando a lua é alta

Sinta a falta
Sinta a falta e espere
Tranque tuas portas com rebeldia
Não desespere
Eu destranco você um dia

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

ENTÃO DESÇA


Desça mais um pouco pra se sujar
O cargo almejado
Um aumento de salário
E mais um pedaço de você fuzilado

Mas desça

Desça mais um pouco pra se acabar
No fosso da alma
No sonho bobo dos coitados
E lá se vai mais um pedaço de você

Mas desça
Insista
Tenha força de vontade
A vontade do edifício
Que no fim do dia você terá o carinho do seu novo automóvel

Desça
Insista
Logo a moda perdoa o que você ouviu de mim
E coloca um neon no seu riso chinfrim

Desça

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

LADO A LADO


Correr para o trabalho
Chegar em casa

Vida prática
Sonhar outro mundo

Aceitar a tempestade
Capa de chuva

Sol e azul
Lua e estrelas

Cama quentinha
Garoa, garoa!

Suco de uva
Café sem açúcar

Vestido azul
Calça surrada

Amor! Amor!

Lista do supermercado
Poema no guardanapo

Lado direito da cama
Qualquer lado

Cor do esmalte
Brilho dos olhos

Roupa suja
Apenas roupa

Festa de casamento
Envelhecer juntos

Lixo reciclável
Violão

Amor! Amor!

Sumir pra lá
Sumir pra cá

Saudade! Saudade!

Quando?

CINZAS

Vá lá
Desgruda o cimento do teu hálito
Eu quero ver você ali
Onde é terno qualquer cômico gosto de inverno

Desusa a gravidade que carrega o coração para o fundo
Um fundo
Sufoco abissal
Língua de veneno que diz coisas sobre você

Mas o que importa a placa de pare dos peitos ocos?

Vá lá
Enfeita de sol o caminho menos usado
Eu quero levá-lo por aí
Onde é anêmico o brilho da mandíbula de aço

Como é sobrevoar o mundo?

Destampar o fundo da gente com sua boca?

Como é que acomoda o adeus dentro de você?

Eles querem saber
Mas é tão difícil o que fazes tão fácil

Vá lá
Guarde a febre
Das cinzas daqueles abraços que hoje pairam ao teu redor

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

ÁBACO

O CEP pra carta chegar
O total a se pagar
A data que dói
A validade do já foi

O código de assinante
O placar do jogo de ontem
A placa do automóvel
O que falta do aluguel

O CPF que não escolhi
O tempo que eu esqueci
O segredo do cadeado
O desconto do supermercado

O ID do usuário
Os códigos do mostruário
A senha do email
O telefone que me veio
E que eu doidamente deixei partir

Quantas calorias pra sorrir?
Quantas risadas pra mentir?
Quantos milheiros pro muro que me divide entre a paz e o que sou aqui?

Quantos dígitos na conta corrente?
Quão branco o teatro dos dentes?
Quantas bocas pra que eu me machuque mais e mais
Até me casar com a tristeza daqui?

Eu errante em algum lugar de mim
Eu errante em algum lugar de mim

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

JÁ FUI

A lua hoje se mandou daqui
Nem esperou por mim
A rua despida é quem me sorri
Enquanto se cobre com a garoa fina

E eu? Onde eu?

Quem sabe um ticket consolação
Quem sabe um dia desses
A pílula de prender as asas no chão
Imaginação chinfrim

Será que eu tomo?
Será que eu esqueço de mim?

A lua hoje desprendeu do alto
Jurei colar com cuidado
Na janela o céu é o mesmo retrato
Que eu sufoco nos copos de café

Um breu...
Sem tristeza pra nós no cardápio de hoje

Tosse um sorriso
Gira em seu eixo
Nessa eu não caio não
Compra um sonho com o cartão de crédito
Eu tchau!

A lua hoje se mandou daqui
Fui eu quem a levou pra lá
Abre a gaveta
O porta-maluquices

Já fui... Já fui

Um breu...
Sem tristeza pra nós no cardápio de hoje
Sem um abraço também
Agora o sono se pendura no feixe de luz do televisor
E vou