terça-feira, 17 de novembro de 2009

DE ALGUM LUGAR

Deita teu corpo em teu deserto particular
O encaixe dos tacos de madeira
O teto brando vigiando tuas coisas
A garrafa vazia de um dia qualquer
A sequência de números num papel

A cidade estica as costas pra se espreguiçar
A gente em choque de ver você gargalhar

Há algo que só você sabe
Há algo que só você percebe

Deita teu corpo em teu deserto azul
A calça esquecida fora do lugar
A janela vestida da luz que passa
A pílula solitária no frasco de dormir
A ave pendurada no fio de alta tensão

A cidade é só um teco do que sai de você
A vida é a dança que você quer reinventar

Há isso que te cabe
Há isso que te cabe

Toque fogo com teus olhos até a onde tua vista alcança
Toque fogo com teu peito até onde a tua alma voa

E quando for a hora de sossegar
Quando o endereço for o último daqui
O último dessa vez de passear
Vou rir de tudo isso de algum lugar

domingo, 15 de novembro de 2009

LOUCA


Passei os olhos por aí pra ver esse caso acabar
Passei os olhos por aí pra recobrar o meu ar

Um começo de tarde
Um farol, um até
Um coração que arde
Na contra-mão da pouca fé

Um quintal na saudade
Um beijo na face
Um palavrão com vontade
Pra quando a dor me esquece

Tem sido tão calmo aqui na falta que você faz
Tem sido tão calmo aqui no prenúncio dessa paz

Um doce na boca
Uma asa nos pés
A vontade até rouca
De gritar sua vez

Um descaso pra isso
Um espasmo no riso
Um lugar que eu peço
Quando me encontro no gozo

E tudo
E tudo isso

Passei os olhos por aí pra me esvaziar de você
Passei os olhos por aí pra me renovar de você

Uma ressaca, um trovão!
A endorfina, o quadril
Uma ressaca, um não!
De mim o que você ainda não viu

Gosto solto na boca
Gosto solto na alma
Será o amor uma louca
Que te ferra e te salva?

Será você essa louca?
Será você essa louca?

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

IGUAL DIFERENTE

Gente subindo e descendo a rua
Gente com riso pra tudo
Gente com horror do mundo
Gente com o peito oco
Gente com a cabeça na lua

Gente calada dentro do elevador
Gente escrevendo uma carta
Gente tomando café
Gente gelada fazendo conta
Gente chorando por amor

Gente discutindo alto o futebol
Gente falando no telefone
Gente dormindo no sofá
Gente jogando na mega-sena
Gente lendo mentira no jornal

E a gente onde fica no meio disso tudo?
Onde a gente belisca o nosso próprio absurdo?

Gente descendo e subindo a rua
Gente sem riso pra nada
Gente conformada com o mundo
Gente com coração profundo
Gente que manda foguete pra lua

Gente que conta piada no elevador
Gente escrevendo um email
Gente tomando cachaça
Gente no bar perdendo a conta
Gente feliz por amor

Gente sussurrando se foi gol
Gente cara à cara pra dizer
Gente trepando no sofá
Gente pegando o metrô
Gente limpando a bunda com jornal

Gente tão igual
Tão diferente

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

BEM VESTIDA

Oi
Eu só passei aqui pra sumir
Nem tenha um presente pra mim
Nem tenha pressa em usar esse adeus guardado em teu bolso
Você até pode usar qualquer palavra do teu cardápio
Quando o silêncio te visitar mais rápido
A poltrona da sala terá um calafrio só de lembrar da zona que eu fiz

Oi
Eu só passei aqui pra sumir
Nem tenha perguntas pra mim
Nem tenha uma frase pronta pra consertar o racho em meu coração
Você sabe pouco das esquinas do teu ouvido
Quando o silêncio te revistar sem pudor
O desenho dos teus olhos vai ficar de mal humor

Mas por aí a gente se vê

É mesmo estranho assim
Na boca o não
Na alma um estrondoso sim
Você até fica despida das tuas roupas
Mas nunca fica pelada de mim

Oi
Eu só passei pra sumir
Tenha essa lágrima esperando por mim
Tenha esses tapas esperando pra descansar no meu peito
Você até pode vestir o teu vestido de esquecer
Mas é que aqui sou eu, meu Bem
Aqui sou eu, meu Bem

É PRA DEPOIS

Ficou pra lá
O que há pra dizer?
O que há pra guardar?
O que há pra sonhar de nós dois?
O abraço é pra depois
A saudade é pra agora

Ficou pra lá
O que é um segundo?
O que é o mundo?
O que é uma vida pra consertar um engano?
Segura que a ladeira é funda

Mas tem algo aí
A gente espera aquela a porta se abrir
E o outro surgir trazendo sol
Lua e carnaval
Isso é pra depois
Isso é pra depois

Ficou pra lá
Que palavra vamos usar?
Que mistura vamos fazer?
Que lugar vamos guardar pra quando a gente envelhecer?
Solta que a alma vai embora nós achar por aí

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

NAQUELE DIA AQUELA NOITE


Naquele dia quando passou
Rasgou a couraça de aço que trancava a voz
Sem usar de força
De músculo qualquer
Oras menina com seus segredos
Noutras poucas mulher com seus anseios
A endorfina louca flutuando nas veias
E o corpo divorciado de seu peso

Beliscaram-se os sérios
Quando viram que do fundo da noite andarilha
Brotavam vagabundas idéias
Tão lindas que a lua ascendia com seu riso de ponta-cabeça

Derramava seu brilho sobre a gente
Aquela noite os tristes de tão adultos se esconderam em suas igrejas
Enquanto as crianças riam
Esticando os braços
E a lua pescava uma a uma
E em pouco tempo deram cria as estrelas do céu

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

FABRIZIA


Foi assim sem querer
Que aquele tempo passou
Que a nossa voz ecoou naquele quarteirão
O bairro todo uma nação
De meninos e meninas esparramados pelo chão

Foi assim sem apitar
Que aquele recreio acabou
Que tivemos receio de rabiscar um desenho
No espelho um estranho
Que mantinha no rosto o mesmo olhar castanho

Sabia que eu gostei de você?
Um amor sem carne
Só a alma feito uma escada
A vontade de brincar juntos a vida toda

Foi assim sem palavra
Que a tarde ficou veloz
Que a noite ganhou luz sem ter estrelas
Na tv cresceram as telas
E a imaginação deu lugar às certezas tolas

Foi assim sem perceber
Que depois a gente cresceu
Que a gente se esqueceu pela vida afora
O mundo inchou lá fora
E o bairro se esconde num fundo do peito agora

Mas eu lembrei que gostei de você
Um amor sem dor
Sem corpos a se pegar
E a gente pescando pipas pelo ar

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

COMO?


Como se sente a vida?
A saudade
A despedida
O amor
A dor
Tristeza e Alegria
Dúvida e certeza
Medo
Coragem
Peso
Leveza
Como se sente que se vive de verdade?
Que quando a morte pedir a mão
Sem pestanejar vai-se numa paz
Pois nada ficou para trás
Como?

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

ACABOU

Acabou na boca
Acabou na geladeira
Na água que despenca do chuveiro
No ângulo da ladeira
Na fantasia exasperada de fevereiro
Acabou o ano inteiro


Acabou no quarto
Acabou na gaveta
No cheiro secreto da roupa dobrada
No asfalto da Anchieta
Na cama que agora acorda arrumada
Acabou sem dizer nada

No copo que madruga sobre a pia
Nos viadutos da cidade
Na ignorância de quem nem sabia
No trânsito desta tarde

Acabou nas mãos
Acabou nos anéis
No café amargo da manhã com pressa
No bilhete no bolso da sessão das dez
No circular que demora mas ainda passa
Acabou sem fazer graça

No escuro do armário
No vazio confessionário
No entulho das gavetas
No barulho das cornetas
Num andante pinéu
Num olhar estanque no céu
E tudo mais que existe por aí
O que eu ainda nem vi
E se no mundo afora já foi o fim
Por que não acaba também dentro de mim?

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

BANDIDO

Vem até aqui
Vem e se entrega
Deixa eu bater a carteira do teu coração
O dia é uma televisão
A noite é um cinema
A tua dor esfarela na palma da minha mão

Vem até aqui
Vem e se ajeita
Deixa eu roubar o foco do teu olhar
A noite é o corpo a suar
O dia é só saudade
O teu riso fica comigo pra quando eu voltar

Sem que você saiba
Sem que você veja
Eu pego pra mim o que sobra de você

Vem até aqui
Vem e se aceita
Deita tua alma na imensidão do meu colo
De dia o teu corpo é o que falo
De noite o teu corpo é o que faço
A tua paz é o regaço que resta da gente depois

Sem que você peça
Sem que você negue
Eu pego pra mim o que sobra de você

Tua dureza pelo ar
O meu choro tão fechado
Diz pra mim o que é o rochedo sem o mar?