sexta-feira, 14 de outubro de 2011

COISA ALGUMA

Acorda
Como a criança antes da escola
Como o boêmio depois da noitada
Como a praia depois da ressaca
Como o pai depois do velório
Como o solitário frente a multidão

Acorda
Como a pólvora após a fagulha
Como a saudade frente a lua
Como a cachaça na manhã seguinte

Como uma revolução numa cidade fantasma
Como um fantasma sem cidade alguma

Nunca mais?
Quando começa o refrão da tua preferida canção
Quando você tem que ficar mais um tempo
Recolhido dentro do seu coração

Atravessa
Como o carro que buzina no túnel
Como o pedestre na contra-mão
Como o pandeiro fora do tempo
Como o silêncio num aniversário
Como o adeus antes do olá

Como a nudez atrás de uma porta
Como a porta que não protege coisa alguma

terça-feira, 11 de outubro de 2011

PRA VOCÊ

Pode ir por aí
Eu te liberto de mim
Eu te recebo assim e te devolvo todo esborrachado
Com a beleza que ninguém dá conta
Com o olhar deliciosamente machucado de perfurar esses tantos muros

Pode ir por aí
Eu te arranco de mim
Eu te arremesso sem fim até onde ninguém te alcança
Até onde nem é homem nem é criança
Até onde nenhum amor daqui conseguiu acompanhar o teu coração

Nem importa a cor do céu naquela hora
A canção que tocava num boteco de esquina
Setenta e três eu te lancei pra vida
Aos sussurros nas orações de Orlando

Nem estou ainda bêbado do mundo
Nem estou bobo e cantando
Nem te peço que queime tua alma no meu solitário encanto
Nem quero que me perdoe por tudo

Pois eu faria tudo de novo e pior aos olhos desses que me caçam
Eu alimentaria esse bando de assustados
Eu mataria a fome desses coitados
Com o meu peito louco e vagabundo

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

SONHO LÚCIDO

Onde me encontro completo
Onde o receio não tem livre acesso
Deito o corpo de minha alma sob o Sol e sob o meu próprio inverno
Nem mais faminto de algum abrigo
Nem mais puto com esse mundo
Nem mais saudoso daquilo que jamais foi vivo

Perdoei o meu peito maravilhosamente bagunçado e confuso
Perdoei o amor como eu o sinto
Cantei de novo as vozes do sino que as mãos fortes de meu avô domavam
Enquanto os olhares do bairro se quebravam em pequenos pedaços
Que o vento sussurrava pra dentro dos meus olhos

Onde começa a nossa sociável mentira?
Eu a termino bem aqui comigo
Hoje
Agora acordei

sábado, 1 de outubro de 2011

SUMI

Qual tristeza enfim
Você com tanto cuidado guardou pra mim?
Eu bem que posso te dar esse agrado
Mas eu já te dei muitas noites dos meus olhos nublados
Do meu choro calado
Já deixei você roubar demais o meu sono
Teu fantasma não me assombra mais

Qual vingança então
Você cozinhou pra mim dentro do teu coração?
Eu bem que quero te ver mais feliz
Mas dos absurdos que você me diz eu guardo adeus
Não volta aqui
Quero que esqueça o contorno do meu rosto

Fiz teu gosto
Fiz teu gosto
Sumi

terça-feira, 27 de setembro de 2011

ORFANATO



Pra onde vai você agora que eu já beijei a tua lona?
Já me despi de toda essa zona que a tua escola me cobrou
Já me perdi da mão gelada e dura que esse tempo só me apertou


Sabe o que eu sou
Sabe onde eu estou
E onde eu não estou é o que mais te incomoda
Eu não giro em tua roda de moer corações
Eu sou assim, o vagabundo que o teu mundo não devorou


Pra onde vai você agora que eu já parti do teu juízo
Já me vali de toda a santa tempestade que me molhou
Já me vi intacto feito que o meu pranto sempre rolou sem culpa


Desculpa minha alegria
Desculpa, eu sou enfim
Uma criança mal educada no teu orfanato chinfrim
Uma criança que zomba do teu venenoso jardim


Eu brinco em frente aos teus monstros
Eu danço a minha lama


Se acalma e não me chama
Eu perdoo a tua falta de asas

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

TANTO ASSIM

Quando me aponta o dedo
Quando me soca a cara
Quando ri do meu som tosco
Quando me esquece lá fora

Quando me toma por tolo
Quando meu corpo ignoras
Quando me solta teus cachorros
Quando nunca me acolhe

Quando me mastiga sem dó
Quando me cospe no chão
Quando mata meu sonho calmo
Quando calma me ignoras

Quando me rouba o sono
Quando me beija sem tesão
Quando rasga meus poemas
Quando põe fogo no meu violão

Quando você foi embora
Quando você foi embota
E quando for embora
Não se atrevas a ir antes de mim

Deita rígida e inóspita de qualquer tranquilidade
Engole tanto peso com teus olhos endurecidos da tua secreta saudade
Sim, és covarde
Mas eu te carrego leve por todo esse meu tempo
Limpo tua consciência dos entulhos das tuas certezas bombardeadas
Não terás o meu tapa em retorno
Terás no meu peito a tua casa

Eu teria em minha lápide não o meu nome por fim:
Apenas aquele que amou Fulana tanto assim.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

SEM PACIÊNCIA

Quase noite de mim já
Eles assim amontoados com os punhos fechados
Os donos de tudo que amanhã nem existe mais
As faces com a mesma incerteza
Os corações murchos
O cadeado das desculpas confortáveis
O medo de ser gente que está em moda
A alma trancada
Onde sou um ladrão a desfrutar do frio desse cofre

Sou um vadio na boca dessas futilidades

Quase noite de mim já
Alguém assim sem jeito como dizem as marionetes
As folhas doentes que o jornal podre tosse
A multidão de crentes que pequeninamente se envaidece

Uma salva à sala das copas lustradas
A vida como um esporte
O sexo como um esporte
A família como um esporte
A informação como um esporte
O amor como um esporte

Seria uma lápide dourada o prêmio pra tanta falta de humanidade?
Seria a fortuna tão leve de se levar pra lá?
Lá... logo lá.

Eu me despeço
Meu pranto e meu riso
Quando sou tragédia
Quando sou piada

Sem paciência pra quem nunca diz realmente nada
E já é quase noite de mim

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

COMO FICA?

Doutor me falou de uma pílula porreta
Que faz até Deus tirar soneca com a Vinte e Três lotada

Eu bem que penso em me valer dessa pequena
Visto que toda a gente me aponta o dedo: Esse aí se acabou na madrugada!

Mas se eu durmo como fica todo o resto?
As estrelas e os botecos
A morena e os olhos ávidos
O coro dos bêbados irresistíveis
As piadas alcoólicas
As risadas sem sentido e tão vivas

O abraço cambaleante dos amigos
As paixões de uma noite
A noite tão comprida
A garoa e a minha saudade?
O coração pelado pelos ares

Como fica a possibilidade de que o meu amor venha me buscar?
Com cara de poucos amigos
Mulher de frases ardidas
Puta comigo
E doida pra me tirar dos braços do mundo onde eu existo
Como fica?

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

NOS SEGUNDOS


Rasgo o meu céu
O esbarro, o estrondo e a febre
Os meus anjos desandam a despencar por aí

O monstro e réu
A canalha, a mentira e o martelo
A minha alma sorrindo a morrer livre assim

Quando enfim num descuido
Teu juízo desprovido de balas
Casamata do teu peito escancarada pra mim
Não serei um ladrão dos teus sentidos
Serei teu cão de guarda
Vigia disso que eu acho tão bonito

Rasgo a cartilha
A vingança, a desculpa e a mágoa
Essas coisas que eu afogo em minha lata de lixo

Um bicho do mundo
A insônia, o silêncio e o descaso
A minha voz sem vergonha trepando nos teus ouvidos

Quando assim num cochilo
Tua desculpa sem chão
Muralha do teu desejo de pernas abertas pra mim
Não seria um cigarro precoce de fogo
Serei teu puto escravo
Até que me encontre nos segundos onde o mundo se perde da nossa vista
Logo ali, logo ali

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

VOLTE SEMPRE

Já que tá sempre certa
Já que é tão madura
Tão dona de toda razão
Tão correta e dura

Já que tá com essa cara de viola sem lua
Eu abro hoje uma exceção

Pra você, que coisa bela
Já fui um anjo
Já fui o tolo
O traste maior
O vagabundo que não tem jeito
Já fui o filho da puta
Já fui o dono das tuas ancas
E depois aquele que não merecia dormir na tua cama

Já que tá sempre reta
Já que é tão segura
Tão bela e profunda
Tão gostosa e pura

Já que tá com essa cara de puta da vida
Eu abro hoje o meu coração

Pra você, que coisa linda
Já fui bom partido
Já fui sujidade
Um louco absurdo
Um bêbado que não faz falta no mundo
Já fui o amigo odioso
Já fui o dono do teu gozo
E agora sou todo solto...
Volte sempre
Até logo!