quarta-feira, 11 de maio de 2016

O niilista

Não, hoje não
Não me fale do que há pra comprar
Da potência ou de quanto irá brilhar
Não me olhe através das coisas
Você fica tão feia… tão igual

Não aplauda o discurso bobo de bar
O abuso de quem pode pagar
Não me diga que é preciso aguentar
Você fica tão feia… e eu vou

Me conta
Quem segura a tua onda quando a farra acaba?
Quem conta a tua história quando você se cala?
E o tempo nos olha da esquina

Não, hoje não
Não me venda as tuas bugigangas
Tua ferrugem pra olhar as pessoas
Não me pese através das coisas
Você fica tão feia… tão igual

Não repita meu nome em tua cama
Minha culpa quando você não ama
Não me implore a tua tosca fama
Você fica tão feia… e eu vou

Me conta, me conta
Quem ainda apronta no céu?
Tua carteira ou as estrelas?

Te pego lá fora

Você me espera além da soleira da porta
Além da segurança do meu bloco
Arma a sua jogada
Prepara a sua armadilha

Mas se descuida
E se lambuza com a lama da sua própria bota

Você me espreita onde termina a minha frase
Onde respiro na minha pausa
Espalha o seu veneno
Cozinha o seu julgamento

Mas se descuida
E se lambuza com a lama da sua própria bota

E faz tempo que te espero
Faz tempo que incentivo qualquer coragem sua
Faz tempo que anseio pelo seu desafio
Pelo seu convite para que me enfrentes

É tão chato esperar pra quebrar a cara da tua falácia

Mas você recua
E se lambuza com a lama da sua própria bota
E se borra
E se borra
Mas espero
Eu te espero pra qualquer hora

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Vamos Vamos

Vamos recuar o abraço
Vamos ficar só num aperto de mãos
E dominar o nosso peito
Adestrar qualquer sentimento que combata a calculadora


Vamos recolher o riso
Vamos odiar com uma boa educação
E afogar o perdão
Assassinar a ponderação que desafia o gráfico percentual


Vamos desmaiar num susto fingido
Numa lágrima registrada
Enquanto no infinito deserto lucrativo
Dormem os ossos dos nossos irmãos


Vamos comprar o discurso
Vamos ficar calados no meio do pranto
Pois haverá o espólio podre
Haverá o hálito de ferrugem das hienas da corporação


Vamos desmaiar num susto tingido
Numa repulsa ensaiada
Enquanto limpamos dos nossos dentes

Os sonhos mortos dos nossos irmãos

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Moleque

Ninguém dali dava nada pra ele
Ninguém sabia do mundo dentro dele
Pra toda a gente
Pra toda a paróquia
Só um moleque riscando parede

Ninguém olhava além do retrato
Ninguém ouvia além da sirene
Quando era guerra
Quando era feriado
Só o moleque brilhando pra gente

Mas veja que chove
E depois vem o sol
Veja que dorme
E depois corre o mundo
Essa coisa que o adulto já esqueceu
Aquilo que era tudo e também era eu

Moleque, moleque
Como a gente se perdeu?
Moleque, moleque
Agora o tolo sou eu
Agora o tolo sou eu

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Irmão

Eu me guardo
E te guardo uma estória
A insônia da parede que te devora
A fenda risonha
Onde escapamos livres para a noite
Para o sol noturno
Para a pluralidade da rua soturna
Deserta mas jamais absurda

Eu me guardo
E te guardo numa história
A bebedeira inapta que nos espera na curva
O coração intacto
Pronto pra ser esmurrado por quem ele guarda
Pois tudo é antigo
Pois tudo hoje é novo e tem pressa
Aprender tudo é uma festa

Eu me guardo
E te guardo noutra história
Não dá mais pra moer aquelas noites agora
Até a saudade já foi embora
Eu me guardo
Eu te guardo
Pra toda hora

“Venha ver como dão mel as abelhas do céu”...

segunda-feira, 4 de abril de 2016

De lado

Está aqui e ali
Mas ninguém vê
O dedo em riste de tanto temer
Beber demais o café conveniente
E nem ligar se o que está por baixo
É chão
É lama
Ou é gente

Parti eu daqui
E a minha fé
Escolhi a escola que é se perder
Cavar um poço dentro de si
E separar dos meus pedaços
O que é meu
E o que é do mundo

E é logo ali
É tão ao lado
Como o ré do mi
Tão encostado
Mas desde sempre fomos educados
E ao esbarrar com a nossa alma

Sempre viramos de lado

domingo, 3 de abril de 2016

Estupidologia

Agora sim
É desta vez
Papai dizia:
O mundo é de vocês!

No meu tempo a gente sofria
No meu tempo não havia tempo
Pra dizer bom dia
Pra ficar atento à quadrilha hereditária

Mas espere um pouco?
Que porra é essa?
Quem entregou a chave do mundo aos abutres?

Agora vi
É outra vez
A tv saliva:
Eu canto com vocês!

No hemisfério a gente se espreme
No hemisfério a descarga liberal
Mas todos felizes
Todos empenhados em se lambuzar

Mas espero um pouco?
Que porra é essa?

É a cruz bugada que chega sem vibrar

terça-feira, 29 de março de 2016

De volta

Voltaria
Sim, voltaria
Encontraria de novo, pela primeira vez
Meus grandes amigos
Vizinhos
Cantos e botecos
Os barulhos da noite
O sol forte
O skate
O açoite que era segurar um riso
O piso frio da sala
A porta destrancada
A coragem

Voltaria
Sim, voltaria
Conheceria de novo, pela primeira vez
O primeiro acorde
O vinho
Livros e bêbados
A canção forte
O copo
O meu rosto arrombado com um riso
O caso do amigo
A porta destrancada
Pai e mãe dormindo sob o mesmo teto

Voltaria,
Sim, voltaria
Avistaria de novo, pela primeira vez
O quadro negro
O giz
Desenhos e silêncio
A zona na cabeça
O futebol
O meu coração espatifado
Que cuidadosamente eu fui colando...
Átomo por átomo

domingo, 13 de março de 2016

Lembrar

Parece ser meu eterno erro
Jamais entregar tudo de mim
Jamais mostrar todas as salas da minha alma
Apenas pra ter algo somente meu


E quem me detesta me chama de estranho
E quem me ama me acusa de ter segredos


As noites que jamais terminaram
As notas da Barbarella
A amizade forjada a risos e pontapés
Agora solidão… solidão de si mesmo.


Os poetas da Bossa Nova…
Os fantasmas do Grunge…
Tornei-me um puto… no conformismo absoluto
De que tudo que se sonha jovem é falta de experiência.


Parece ser meu eterno erro
Levantar-me para um café
Levantar-me para a vida

E lembrar… e lembrar… e lembrar...

sábado, 5 de março de 2016

Que se fodam os poetas

Solidão não tem lugar
Não escolhe rosto nem parentesco
E não importa nada
Você é o padrasto cruel
O assaltante que rouba a alegria da casa

Solidão é o amigo invisível que o poeta carrega
Ela o alimenta
Leva ao trabalho
Ao dentista
Ao boteco e a novena
Silenciosamente
Pacientemente

Eles amam os poemas
Mas detestam os poetas

O poema é imortal
É puro e perfeito
É lindo
É cool

O poeta é louco e vagabundo
Sozinho e problemático
Triste e perdido
É estranho
Não é bom partido
Não é confiável
Não tem os pés no chão
É infantil
É tolo e sonha demais

Eles amam os poemas
Mas detestam os poetas

Os poemas são divinos
São sábios
Palmas e lágrimas aos poemas
E que se fodam os poetas