segunda-feira, 31 de maio de 2010

ASSIM SERENO

Aqui e hoje
Um espectro vivo
Vagando naquela noite
Naquelas horas onde se calaram os ruídos
Onde testemunharam as estrelas e o concreto suado de garoa
Cada olhar e cada sorriso
Lembra você também disso?

Da mão chamando a outra pela primeira vez a correr pela vida
E a desculpa lacrimogênea
E a vontade de mais
E tão mais do que cabia dentro da gente

Aqui e hoje
E amanhã quando?
Que bom que eu ainda acredito
Assim tão secretamente ávido
Assim sereno
Assim contra o mundo todo
Assim de bem comigo

quarta-feira, 19 de maio de 2010

NÃO MANDO FLORES


Não mando flores
Não telefono
Não te abraço se a noite é fria
Não abro a porta
Nem olho torto
O tamanho curto da tua saia

Do que então reclamo?
O que então eu quero se o que te dou você nem vê?

Meu sono tosco
Noites em claro
Olhos parados numa xícara de café
O meu silêncio
Aquela lágrima
Quando a canção me faz lembrar de você

Não trago agrados
Nem mesmo percebo
Do teu cabelo se perguntas pra mim
Não comprei o anel
Fiquei calado
Quando aqui dentro eu dizia sim

Do que então reclamo?
Sei que nem faz ideia do que você carrega por aí

Meu peito todo
Meu peito quase
Meu peito solto que vai sem eu pedir
Meu peito tolo
Meu peito viúvo
Meu peito triste já que você não está mais por aqui

domingo, 2 de maio de 2010

INTENÇÃO


Não tenho a intenção de viver mais do que me caiba viver
Não quero mais do que preciso
Não tenho medo do ponto exato
Da alegria exata sem exagero

Não tenho a intenção de agradar fora do meu jeito
Não quero nada além do que mereço
Não tenho anseio pelo demais
Pela bajulação cheia de dedos

Não tenho a intenção de viver pelo dinheiro
Não quero nada além do que preciso
Não tenho a febre do ouro bêbado
Da solidão taciturna de um diamante no porta-jóias

Não tenho a intenção de te esquecer
Mesmo que doa em mim e só em mim
Pois a você desejo que a vida a tenha como a filha preferida
Uma loteria de alegria todinha pra você

Não tenho a intenção de desaparecer do teu pensamento
Não vou desabitar teu peito ranheta
Não me acanho com tua teimosia
Tua mania de guardar o que eu já peguei pra mim

Não tenho a intenção de ser o homem que você sonhava
Mas tenho a certeza de ser o homem que você nem imaginava

sexta-feira, 30 de abril de 2010

ME DEIXE

Não passe a tempo de me guardar da chuva enquanto sol
Do frio enquanto calor
Do jeito falso indiferente com que cruzo as pessoas na rua

Pode ser esse brilho em mim a tua assinatura?

Não passe a tempo de me salvar da solidão enquanto escola
Do silêncio enquanto música
Da chama dura que se guarda pra aquecer a tua vida

Pode ser esse brilho em mim a tua assinatura?

Não passe a tempo de me salvar do choro enquanto vida
Da saudade enquanto aceite
Do que foi a minha vida ali há pouco... ainda meu maior tesouro

Nem se preocupe com o que se ocupa em tentar me cercar
São fios de vozes caquéticos
Assombros capengas
Fantasmas farrapos de uma raiva covarde que jamais me assusta

Pra você, mesmo que reste um nunca à nossas mãos noutra hora juntas
O meu profundo Amor, meu Bem

quinta-feira, 8 de abril de 2010

NEM VEM QUE EU NEM SEI


Nem vem você
Que hoje eu nem vou me dar assim tão cego
Eu pego meus cacos e vou pra lá
O que dizer
Se o que queres resgatar de mim hoje eu nego?
Eu sigo a estrada que acaba em tua língua
Eu rio a melancolia da tua pinga

Nem vem você
Que hoje eu nem tenho uma mentira pra dizer
Fui benzer umas datas do calendário
O que perder
Se deixei tudo que é de mim em teu peito?
Eu vivo a prévia da ressaca que te espera
Eu morro a mentira que você berra

Que flor assim tão singular
Vive tanto tempo sem alguém pra vigiar?
Que dor assim tão devagar
Passa tão serena sem alguém pra consolar?

Nem vem você
Que hoje eu vou me lambuzar do teu veneno
Eu dano a lógica da canalha
O que dizer?
O que jogar fora do porão das nossas coisas?
Eu vendo caro duas sílabas semi-usadas
Eu deixo meu nome murmurando em tuas calçadas

sexta-feira, 19 de março de 2010

ATÉ LÁ


Até lá ainda vai acontecer no meu rosto
Uma chuva qualquer num outono
O músculo engrenado num pranto ou num riso
A cor da saudade daquela menina
A calmaria dos sonos desordenados com o relógio do dia

Até lá ainda vai me acompanhar por aí
Uma lua que sopra o que os loucos ouvem
A doçura que falta no que os covardes escolhem
O ponto final de toda mentira
O descaso afinal que flutua acima dessa vida impostora

Até lá
Eu serei menos o que nem sou
O que nunca fui
O que nunca estou
Quando na curva de um conselho eu me abasteço de outro valor
Até lá um dia dirão tudo que eu ousei dizer
Dirão que eu morri de tanto o meu coração bater

segunda-feira, 15 de março de 2010

TUDO É BOM


Não
Você não vai rolar pelas escadas do teu coração
Você não vai sempre passear de mãos dadas à essa solidão
Beber sempre esse copo de Não... não

E se o melhor foi a hora perdida?
O vagão lotado
Um desencontro na saída
O trânsito parado
O telefone mudo
O abraço absurdo que a campainha não berrou

E se o melhor foi a data esquecida?
O caminho trocado
Uma outra avenida
O celular roubado
O endereço trocado
O email apagado que alguém um dia enviou

Um dia
Que dia?
Quem diria haver tanta vontade em quatro letras unidas?

Não
Você não vai rolar pelas escadas do teu coração
Alguma hora da vida tudo é bom

quarta-feira, 10 de março de 2010

O ALCOUCE DAS BRUXAS


Cantam afinadas deitadas sobre o meu peito
As bruxas que me adotam
Que me aceitam sem fantasia
Belas e gostosas
Visitam minha vida
Minha alma e minha história
Quando a cachaça doce e fluorescente
Beija a minha boca afiada mas calma

Vão elas tão lindas
Tão soltas e sábias
Sem roupa
Sem profissão
Sem cartão de crédito
Sem o carimbo medonho do falso sucesso

Me dão seus peitos fartos
Suas coxas vivas
Suas bundas certas
Seus braços aflitos
E eu aqui
Vivo e descanso
Na secreta e suculenta paz desses lábios

terça-feira, 9 de março de 2010

TEM MAIS


Vou para o meu lugar
Afastado agora de você
Vencido pela tua revoada de não
Vou sair daqui
Do teu chão comportado
Subsolo da minha alegria
Aquela que te dei aquele dia
De mãos dadas
Enquanto nossas passadas venciam a multidão
Venciam as distâncias das nossas possibilidades

Vou para o meu lugar
Alto como meu coração gosta de respirar
Ar rarefeito de vozes matemáticas
De contas e anúncios da televisão
Onde eu sonho o que vivo
Pois a minha vida é a minha maior invenção

Tem mais de nós por aí
Tem mais de mim em você do que só o espaço que eu ocupava naquele colchão

segunda-feira, 1 de março de 2010

PERCEPÇÃO


Hoje desapareci dos espelhos
Dos olhos e das vitrines
O vento não me achou
A chuva não me molhou
O sol... onde mesmo eu fui deixar

Quem é esse que vive do outro lado do meu olhar?
O lado de dentro
Quem é esse que não consigo medir com as réguas de que se valem toda a canalha?

Esse que quando vai eu sigo
Esse que quando dói eu choro
Que quando cai eu me machuco

Que quando ama eu flutuo sobre esse mesmo mundo anunciando que meu coração já tirou o sol do castigo
E hoje ele já vai brincar fora de casa