segunda-feira, 9 de novembro de 2009

É PRA DEPOIS

Ficou pra lá
O que há pra dizer?
O que há pra guardar?
O que há pra sonhar de nós dois?
O abraço é pra depois
A saudade é pra agora

Ficou pra lá
O que é um segundo?
O que é o mundo?
O que é uma vida pra consertar um engano?
Segura que a ladeira é funda

Mas tem algo aí
A gente espera aquela a porta se abrir
E o outro surgir trazendo sol
Lua e carnaval
Isso é pra depois
Isso é pra depois

Ficou pra lá
Que palavra vamos usar?
Que mistura vamos fazer?
Que lugar vamos guardar pra quando a gente envelhecer?
Solta que a alma vai embora nós achar por aí

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

NAQUELE DIA AQUELA NOITE


Naquele dia quando passou
Rasgou a couraça de aço que trancava a voz
Sem usar de força
De músculo qualquer
Oras menina com seus segredos
Noutras poucas mulher com seus anseios
A endorfina louca flutuando nas veias
E o corpo divorciado de seu peso

Beliscaram-se os sérios
Quando viram que do fundo da noite andarilha
Brotavam vagabundas idéias
Tão lindas que a lua ascendia com seu riso de ponta-cabeça

Derramava seu brilho sobre a gente
Aquela noite os tristes de tão adultos se esconderam em suas igrejas
Enquanto as crianças riam
Esticando os braços
E a lua pescava uma a uma
E em pouco tempo deram cria as estrelas do céu

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

FABRIZIA


Foi assim sem querer
Que aquele tempo passou
Que a nossa voz ecoou naquele quarteirão
O bairro todo uma nação
De meninos e meninas esparramados pelo chão

Foi assim sem apitar
Que aquele recreio acabou
Que tivemos receio de rabiscar um desenho
No espelho um estranho
Que mantinha no rosto o mesmo olhar castanho

Sabia que eu gostei de você?
Um amor sem carne
Só a alma feito uma escada
A vontade de brincar juntos a vida toda

Foi assim sem palavra
Que a tarde ficou veloz
Que a noite ganhou luz sem ter estrelas
Na tv cresceram as telas
E a imaginação deu lugar às certezas tolas

Foi assim sem perceber
Que depois a gente cresceu
Que a gente se esqueceu pela vida afora
O mundo inchou lá fora
E o bairro se esconde num fundo do peito agora

Mas eu lembrei que gostei de você
Um amor sem dor
Sem corpos a se pegar
E a gente pescando pipas pelo ar

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

COMO?


Como se sente a vida?
A saudade
A despedida
O amor
A dor
Tristeza e Alegria
Dúvida e certeza
Medo
Coragem
Peso
Leveza
Como se sente que se vive de verdade?
Que quando a morte pedir a mão
Sem pestanejar vai-se numa paz
Pois nada ficou para trás
Como?

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

ACABOU

Acabou na boca
Acabou na geladeira
Na água que despenca do chuveiro
No ângulo da ladeira
Na fantasia exasperada de fevereiro
Acabou o ano inteiro


Acabou no quarto
Acabou na gaveta
No cheiro secreto da roupa dobrada
No asfalto da Anchieta
Na cama que agora acorda arrumada
Acabou sem dizer nada

No copo que madruga sobre a pia
Nos viadutos da cidade
Na ignorância de quem nem sabia
No trânsito desta tarde

Acabou nas mãos
Acabou nos anéis
No café amargo da manhã com pressa
No bilhete no bolso da sessão das dez
No circular que demora mas ainda passa
Acabou sem fazer graça

No escuro do armário
No vazio confessionário
No entulho das gavetas
No barulho das cornetas
Num andante pinéu
Num olhar estanque no céu
E tudo mais que existe por aí
O que eu ainda nem vi
E se no mundo afora já foi o fim
Por que não acaba também dentro de mim?

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

BANDIDO

Vem até aqui
Vem e se entrega
Deixa eu bater a carteira do teu coração
O dia é uma televisão
A noite é um cinema
A tua dor esfarela na palma da minha mão

Vem até aqui
Vem e se ajeita
Deixa eu roubar o foco do teu olhar
A noite é o corpo a suar
O dia é só saudade
O teu riso fica comigo pra quando eu voltar

Sem que você saiba
Sem que você veja
Eu pego pra mim o que sobra de você

Vem até aqui
Vem e se aceita
Deita tua alma na imensidão do meu colo
De dia o teu corpo é o que falo
De noite o teu corpo é o que faço
A tua paz é o regaço que resta da gente depois

Sem que você peça
Sem que você negue
Eu pego pra mim o que sobra de você

Tua dureza pelo ar
O meu choro tão fechado
Diz pra mim o que é o rochedo sem o mar?

terça-feira, 29 de setembro de 2009

PASSEIO



Despe-se a cidade da pouca luz
O sol detrás de um céu nublado
Acanhado diz adeus

Deita à sombra das coisas
As avenidas
As buzinas
As passadas desordenadas nas escadas do metrô

Que vento pode correr as vias até você?
Que grão de garoa pode sussurrar meu nome em teu ouvido?

Escondo dentro de mim tuas estrelas
A paz é uma solitária beleza
Cercada de feiúra

Desliza à cor das almas
Os viadutos
As cervejas
A arrogância elétrica das torres sonolentas

Que saudade pode furar tuas paredes?
Que vontade pode embriagar teus cães de guarda?

Então eu passeio
Eu passeio
Vê se nalguma esquina você me espera

Reclamo o sabor de uma alegria
Um metro quadrado de vida
Como um abrigo

Dança ao perdão da chuva
Os semáforos
As vitrines
Os copos desalinhados no balcão do boteco

Quem sabe a gente se acha de vez naquele dia?

Então eu passeio
Eu passeio
Vê se nalguma esquina você me pega

COR DE SAUDADE

Não quero nada teu
Tua postura
Tua certeza
Mimada, errada e miúda
Tua voz
Teus dedos que apontam
Teu orgulho e medo
Medo
Medo
E medo...

Não quero nada teu
Tua perfeição
Tua sala
Arrumada, quieta e morta
Tua cama
A chama do teu isqueiro
Tua vida programada
Medo
Medo
E medo...

Nem quero teu perdão
Nem quero tua lágrima
Você chora sorrindo
E segue
Indo
Indo
E indo bem raso dentro do teu peito

Não quero teu consolo
Quero morrer no meu mundo aqui dentro
E hei de nascer aqui dentro de novo
E hei que querer tudo de novo
E hei de buscar no mundo de novo
Você

Pois do filho que a gente ainda não teve
Eu sei que os olhos têm cor de saudade

TODO ERRADO


Sou todo errado meu Bem
Na manhã que explode no relógio da matriz
Na caminhada aflita da gente que se tromba
Na quietude de quem cala uma dor
Na calma doentia de quem aceita a alma enrolada em arame farpado

Sou todo errado meu Bem
No medo de ouvir o que a lua diz
Na postura adestrada de quem não zomba
No peito cego diante de uma flor
Na cama arrumada onde a cabeça repousa sem ter ao menos sonhado

Sou todo errado meu Bem
No manual que essa gente usa pra ser feliz
Na educação em ter no peito uma tumba
No coração que nunca chora um amor
No refrão que a multidão decora pra deixar a vida de lado

Sou todo assim
Esse rascunho da vida certinha
Essa história fora do contexto sem começo nem fim
Mas advinha meu Bem
Sou todo errado pra te amar como ninguém!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

E UM DIA

Descole tua tosca diversão
Um passeio pela tua conversa fiada
Um drinque da tua alma miúda
Eu deixo que abuse um pouco do meu tempo
Tente o tom do meu canto
Só um pouco antes que eu te negue atenção

Descole tua morna ilusão
Tenha o cuidado de não ficar ao meu lado
Tenha o cuidado de guardar distância de mim
Você não agüenta o tranco de ser livre assim

Descole tua tosca diversão
A cara enfiada nas letras de um jornal
A frase da tua mentira matinal
Eu seguro em tua mão pra você atravessar a lua
Mas a volta é só tua
E você teima sempre se esborrachar no chão

Descole tua morna ilusão
Decore a tua vida com teus móveis
Teu armário
Teu controle remoto
Teus brincos dóceis
O estofado de couro
Teu carro veloz
O relógio de ouro
Tua anestesia em alta definição
Teu cartão sempre à mão
E um dia nada que tenha feito rir o teu coração