terça-feira, 6 de maio de 2014

Mãe

Olhei fundo as vidas no teu olhar
Fui por aí querendo te imitar
E fui trancado como um dos teus loucos
Quando não jurei a reza dos santos ocos


Lavei meus olhos com o meu choro
Guardei meu sono de tanto apuro
E me alimentastes também com abandono
Pra que eu pudesse ser então o meu dono


Não entendo tua letra
Nem entendo teu rosto
Se é sorriso
Se é careta
Na sarjeta do meu ser
Quando sou filho de algum sonho teu
Quando sou a alma que você me deu


Não entendo teus bilhetes
Nem entendo teu silêncio fundo
Mas eu sei dos teus olhos que me seguem quando estou solto pelo mundo

Ontem é hoje

O sol já sobe lá fora
E o menino sente alívio ao deitar
Seu sono sem demora
Seu coração é o tesouro pro homem que ele jura se tornar


Um dia…
E onde eu estou agora?
E onde está você, meu sábio de olhos certeiros?


Ali tão perto o mundo inteiro
São tantas palavras nos seus dedos
São tantos refrões escancarados
Como se a vida fosse fevereiro


E o que mais?
Ah, por favor
Volta pra aqui dentro do meu peito


O sol já sobe lá fora
E eu sinto frio ao me deitar
Meu sono sem minha hora
Meu coração é um lugar que eu teimo em não visitar


Outro dia…
E onde ele está agora?
E onde eu estou, meu sábio de olhos certeiros?


Aqui tão longe do mundo inteiro
Sou tantas palavras nos meus dedos
Sou tantos refrões não terminados
Como quem espera por um fevereiro


E o que mais?
Ah, por favor
Volte a viver dentro do meu peito

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Ana

Eu observo algo meu
Feito quem olha uma nuvem passar
Querendo segurar o que se perdeu
Revendo o filme da vida num olhar

Eu observo algo meu
E sou tão bom em não dizer
Se foi saudade que me bateu
Se foi o meu dom em se perder

Por aí
Por aqui
Onde quem me salva é só você

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Um teco de mim

Fui até o teu lugar favorito
Fingi sorrir da tua pior piada
Pisei nas pedras da catedral lacrada
Pisei nos vidros da tua estrada

Fui pra ser mais um dos teus
Li o livro que você escolheu
Usei a roupa que você me deu
Usei a droga que você vendeu

E não
E não sabia algo de mim…
Velei tanta tristeza sem ninguém saber
E assim eu era um teco de mim

E só há um no corpo angélico
E só me perdi nas tuas mentiras
E só apaguei no teu hálito lisérgico

Fui até o seu lugar secreto
Segui pra escola sem pestanejar
Cantei o hino quando quis chorar
Cantei a dor por não poder amar

Fui pra longe e não sou dos teus
Cuspi a droga que você mentiu
Fugi de tudo e ninguém me viu
Fugi do mundo e ninguém sorriu

E fui
E fui saber algo de mim
Velei tanta tristeza sem ninguém saber
E assim eu era um teco de mim

quarta-feira, 23 de abril de 2014

É Isso Mesmo

Busquei teu colo feito alguém perdido
Um exilado do mundo
Um violão sem canção
Quando derrapei nessa estrada confusa chamada coração


Fiz dos teus olhos o meu único vigia
Um soltado lacônico
Um analgésico proibido
Pra essa dor caprichosa que eu roubei feito um bandido  


Você escreveu
Talvez sorrindo
Talvez mentindo
Que a vida segue e é isso mesmo
É isso mesmo


E eu só te joguei meu sorriso
Como quem joga as poucas moedas que leva no bolso


Chorei sobre o balcão de um boteco
Nem era feriado
Nem era fim de festa
Era minha alma esquisita que você diz que não presta


Você nem viu
Talvez dormindo
Talvez sonhando
Que eu vivo e é isso mesmo


Pois há nessa lágrima um abraço
Há nos meus cacos algo intacto
Há no meu luto sempre um recomeço

Pois eu vivo e é isso mesmo

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Consumo

Teremos tudo
Toda grana e toda glória
Todos os louváveis títulos acadêmicos
A taça do campeonato
Teremos os filhos encomendados
Na língua o hálito metálico
O peito vazado pela lâmina da modernidade
Consumiremos tudo do lodo intoxicante
E nada da nossa humanidade


Teremos tudo
Toda fama e toda razão
Todo o som moribundo da casa vazia
A dor do riso forçado
Teremos os amigos digitalizados
No beijo a alma intocada
O olhar voltado para o futuro plástico
Consumiremos tudo do lixo vaidoso
E nada da nossa humanidade


Teremos tudo

E enfim seremos bastardos de nós mesmos

sexta-feira, 7 de março de 2014

Impecável

Eu vejo os impecáveis
Eu os tenho com pena
E com alívio
Um analgésico para os meus mais preciosos defeitos

O seu medo inominável
O seu receio em usar o erro
Uma das ferramentas mais poderosas desta existência

Como se o acerto fosse desinfetado de humanidade
Como se a alma humana fosse tão tosca e miúda
Incapaz de levantar depois de um erro

Escolhem o acerto seguro
Límpido e acadêmico
As palavras permitidas
A norma
O tom correto
A regra formal
Corações formais
Bando de cagões

Eu quero enricar o meu espírito
E quando jaz pó

De todos os meus erros eu terei o acerto de ter realmente vivido

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Deixa quieto

Deixa eu ver
Qual é mesmo o gesto?
Qual é a frase que eu devo dizer antes disso tudo?

Sabe?
Fique aqui
Pode ficar com tudo
Sou eu que quero correr
Eu quero é pular o muro
É foder com esse papel de parede

Deixa quieto
É minha culpa
É minha
A paz que eu deixei pendurada na lua
Pra caber no teu terno
Nesse terno
E o que é terno entre os infames homens sérios?

Deixa quieto
Deixa quieto
Já deu a hora da missa de domingo
E eu vou estragar a festa

No fim das contas Deus tem um carinho secreto para com os seus perdidos

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Samba Enredo

E te agrada a frase pronta
Mas esquece do que dá forma à tinta
Do que controla a mão
Do que motiva a idéia
Da aflição explosiva sem etiqueta
Da depressão solitária
Muitas vezes secreta
Da euforia que escancara a alma
A mania absurda

Acha estranho
Das coisinhas do mundo que mastiga
Nem apetite meu coração sente
Pois sente fome do que dele mesmo se estende
Até onde a vista comum nunca alcança
Até onde será meu coração venenoso pras tuas certezas

Do amor travestido saberá todas as letras
Feito um samba enredo

Do meu amor capenga prefiro mesmo é saber do gosto

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Tequila Baby

Foi quando o mundo era mais lento
Ninguém oferecia um copo de água esperando um Nobel
Foi bem ali
Quando vi a melhor seleção de todos os tempos perder para a Itália
E foi tanta coisa
Atiraram no John Lennon
Meu pai chorou pela Elis
Meu avô soltou os pássaros do viveiro
Minha avó fez seus pães caseiros

Eu e meu irmão
Éramos índios
Astronautas
Náufragos de um bairro novo e desabitado
Lembra disso, Tuttão?
As iças numa caixa de bombons
A Chula numa caixa de sapatos
Nossas coxas rasgadas pelo mato colonião
Quando a dente de leite se afastava

Ali na luz que a janela permitia
Eu era algo
Eu era feliz e triste
Um universo inteiro contido num corpo de criança

Lembra, Tuttão?
A nossa dança na música das abelhas
A Arca de Noé
A nossa fé nas estrelas

Lembra do céu ensolarado de um domingo?
O lago e o escorregador
Nossos corpos
Torpedos de alegria
A ducha fria

Lembra do frio em Santos
O sono no banco de trás de uma brasília

As latas de cervejas dos adultos
Não era alumínio
E isso?
Será que é poesia
Ou bebedeira?
Tequila, baby?

Tequila a noite inteira