sexta-feira, 25 de junho de 2010

SONHO VIGARISTA

Amarrei minha sorte à saia de um sonho leve
Eu sabia do riso
Sabia dos olhares da lua
Meu corpo entregue e meu peito sempre na rua esperando o fogo daquela hora

Num nome a febre mais deliciosa
No peito o que nem a morte devora

Mas veja só como se dar é mesmo algo tão singular
O sonho nem era sonho
Fez-me um estranho à minha própria vista
Um fantasma vigarista
Que disse do fundo do seu coração vermelho me amar
Mas quando acreditei nunca mais tive coração para dar

terça-feira, 22 de junho de 2010

CARECER

Nestas que me ofereces eu vou me manter em paz
Silêncio e distância
Careço, careço sim
Mas não do que julgam teus números na ponta de uma caneta
Teu peito de pés inchados e asas atrofiadas
Teu infame discurso de soprar veneno
Tuas frases fedorentas

Careço do que não se inventa
Do que não se atentam os dedos enquanto trepam com as cédulas
Do que não existe na particular comodidate de uma vida muito bem avaliada
O descaso com culpa para o vento
A âncora onde se amarram os beijos... as noites verdadeiras...
Pra que morram nessa geleira escura que adorna teu peito

Careço do que tu careces
E que apesar das minhas chulas preces
Negamos um ao outro com a tranquilidade dos mortos

segunda-feira, 21 de junho de 2010

DANADA

Fique quieto em tua saudade
Fique quieto e calmo
Não gaste farpas de palavras com esses
Nem querem saber de você na casa das almas engomadas
Nem querem saber de você na prisão onde a canção escapa
Linda e viva
Pois já é livre feito que é a roupa de tua alma
Nem podem saber de você pois eles nem sabem que existe tanto mais que dos olhos escapa
E que existe uma beleza fértil e sem preço
Sem desconto de 10%
Então calma
Nem querem saber de você
E isso é uma puta sorte danada!

terça-feira, 15 de junho de 2010

NOSSO TEMPO

O que será que pensam de nós os bilhetes esquecidos pelas gavetas?
Será que dança sobre a pia o copo quando eu ainda não voltei pra casa?
Quando a minha estrada é o nível amarelo de um copo de cachaça
Que uso feito uma borracha pra apagar teu nome dentro de mim

Será que riem ou que choram as estrelas quando falo sozinho minhas doideiras?
Quando eu canto baixinho essa tristeza
Quando eu subo pelas escadas os andares do meu peito
Andar por andar
Tantas portas fechadas e apenas a mesma chave
E você sabe
Ah, você sabe

O que será que pensam de nós os confetes amanhecidos da quarta-feira?
Será que sussuram a nossa vida às serpentinas aterrizadas na sarjeta?
Quando a minha casa é teu sorriso fotografado naquele tempo
Picado em pedaços soltos nalgum vento mas todo inteiro aqui dentro

Será que você me vigia pra garantir que eu não escapo do teu esquecimento
Ou me guarda com afinco pra lembrar que deve me esquecer um dia desses...
Antes do fim do nosso tempo?

quarta-feira, 9 de junho de 2010

AS COISAS NO LUGAR


Chego inteiro em teu olhar

Chego pra pôr as coisas no lugar

Chego e de tanto eu te sacar você aperta teus olhos

Pra saber que estou em teu quadril

Em tua nuca nua

Na rodovia de tuas costas

O conforto de tuas ancas

Tuas nádegas se debatendo em mim

Você aperta teus olhos pra saber que do teu coração eu jamais fugi

segunda-feira, 31 de maio de 2010

ASSIM SERENO

Aqui e hoje
Um espectro vivo
Vagando naquela noite
Naquelas horas onde se calaram os ruídos
Onde testemunharam as estrelas e o concreto suado de garoa
Cada olhar e cada sorriso
Lembra você também disso?

Da mão chamando a outra pela primeira vez a correr pela vida
E a desculpa lacrimogênea
E a vontade de mais
E tão mais do que cabia dentro da gente

Aqui e hoje
E amanhã quando?
Que bom que eu ainda acredito
Assim tão secretamente ávido
Assim sereno
Assim contra o mundo todo
Assim de bem comigo

quarta-feira, 19 de maio de 2010

NÃO MANDO FLORES


Não mando flores
Não telefono
Não te abraço se a noite é fria
Não abro a porta
Nem olho torto
O tamanho curto da tua saia

Do que então reclamo?
O que então eu quero se o que te dou você nem vê?

Meu sono tosco
Noites em claro
Olhos parados numa xícara de café
O meu silêncio
Aquela lágrima
Quando a canção me faz lembrar de você

Não trago agrados
Nem mesmo percebo
Do teu cabelo se perguntas pra mim
Não comprei o anel
Fiquei calado
Quando aqui dentro eu dizia sim

Do que então reclamo?
Sei que nem faz ideia do que você carrega por aí

Meu peito todo
Meu peito quase
Meu peito solto que vai sem eu pedir
Meu peito tolo
Meu peito viúvo
Meu peito triste já que você não está mais por aqui

domingo, 2 de maio de 2010

INTENÇÃO


Não tenho a intenção de viver mais do que me caiba viver
Não quero mais do que preciso
Não tenho medo do ponto exato
Da alegria exata sem exagero

Não tenho a intenção de agradar fora do meu jeito
Não quero nada além do que mereço
Não tenho anseio pelo demais
Pela bajulação cheia de dedos

Não tenho a intenção de viver pelo dinheiro
Não quero nada além do que preciso
Não tenho a febre do ouro bêbado
Da solidão taciturna de um diamante no porta-jóias

Não tenho a intenção de te esquecer
Mesmo que doa em mim e só em mim
Pois a você desejo que a vida a tenha como a filha preferida
Uma loteria de alegria todinha pra você

Não tenho a intenção de desaparecer do teu pensamento
Não vou desabitar teu peito ranheta
Não me acanho com tua teimosia
Tua mania de guardar o que eu já peguei pra mim

Não tenho a intenção de ser o homem que você sonhava
Mas tenho a certeza de ser o homem que você nem imaginava

sexta-feira, 30 de abril de 2010

ME DEIXE

Não passe a tempo de me guardar da chuva enquanto sol
Do frio enquanto calor
Do jeito falso indiferente com que cruzo as pessoas na rua

Pode ser esse brilho em mim a tua assinatura?

Não passe a tempo de me salvar da solidão enquanto escola
Do silêncio enquanto música
Da chama dura que se guarda pra aquecer a tua vida

Pode ser esse brilho em mim a tua assinatura?

Não passe a tempo de me salvar do choro enquanto vida
Da saudade enquanto aceite
Do que foi a minha vida ali há pouco... ainda meu maior tesouro

Nem se preocupe com o que se ocupa em tentar me cercar
São fios de vozes caquéticos
Assombros capengas
Fantasmas farrapos de uma raiva covarde que jamais me assusta

Pra você, mesmo que reste um nunca à nossas mãos noutra hora juntas
O meu profundo Amor, meu Bem

quinta-feira, 8 de abril de 2010

NEM VEM QUE EU NEM SEI


Nem vem você
Que hoje eu nem vou me dar assim tão cego
Eu pego meus cacos e vou pra lá
O que dizer
Se o que queres resgatar de mim hoje eu nego?
Eu sigo a estrada que acaba em tua língua
Eu rio a melancolia da tua pinga

Nem vem você
Que hoje eu nem tenho uma mentira pra dizer
Fui benzer umas datas do calendário
O que perder
Se deixei tudo que é de mim em teu peito?
Eu vivo a prévia da ressaca que te espera
Eu morro a mentira que você berra

Que flor assim tão singular
Vive tanto tempo sem alguém pra vigiar?
Que dor assim tão devagar
Passa tão serena sem alguém pra consolar?

Nem vem você
Que hoje eu vou me lambuzar do teu veneno
Eu dano a lógica da canalha
O que dizer?
O que jogar fora do porão das nossas coisas?
Eu vendo caro duas sílabas semi-usadas
Eu deixo meu nome murmurando em tuas calçadas