domingo, 26 de junho de 2011

DE MOLHO


Entregue ao silêncio da casa
Você para as coisas à sua volta
O que jaz cativa hoje você solta
Arranca do peito aquela coisa

Entregue ao silêncio da casa
A tosse que rasga o escuro
A memória que derruba aquele muro
Os olhos onde tua saudade vaza

A voz não chega hoje... e ambos sabem
A mão não afaga hoje... e ambos sabem
Não há corpos sob as cobertas
Não há palavras sacanas
Só lembrança

Livre nesse trampolim onde na noite o teu olhar foge
Enquanto o mundo pergunta por você do lado de fora


quinta-feira, 2 de junho de 2011

UMA PRECE NO SILÊNCIO

Quando não te cabes aí dentro
Latente do fermento do universo
O sal do mar na narina
O ar puxado com calma
O sol de uma manhã serena
Perdida nas páginas do livro destes olhos

Quando não te cabes aí dentro
É que te aprontam mesquinhos desaforos
Os dedos rijos mirando teu rosto
O discurso do velho... do mesmo

O que sabem eles dentro de seus aquários?
O que sabem eles do teu oceano de sentimentos?
Tuas saudades abissais
Tua insistência diante da rocha
Corações de pedra
Emoções de vento

Quando não te cabes aí dentro
É que te cospem as cobras todo o veneno
Então aí é que tens que ter tua calma
Tua ciência desse escancarado segredo
Teu ouvido para o sussurro do tempo

Força
Força é o teu pensamento

quarta-feira, 25 de maio de 2011

DE GRAÇA

Deite teus olhos sobre a cidade
Da janela que te abre pra mim
Essa tua negada verdade
Essa ladainha que não tem mais fim

Quanto vale aquele papel?
Quanto vale o automóvel que vai?
O branco bordado de um véu
A solidão com gelo num hi-fi

O que sonha a alma e a gente não vê?
Quanto vale as bobas rimas que faço pra você?

Deite teus olhos sobre meu coração
Toda senhora em sua torre de cristal
Meu nome feito tua oração
Minha falta feito teu maior mal

Quanta foi aquele anel?
Quanto foi a lamborghini?
O mundo todo seu
O vazio e um dry martini

O que sonha a alma e a gente nem vê?
Quanto vale o pedaço meu que eu dou de graça pra você?

segunda-feira, 9 de maio de 2011

AS LUAS DA MEIRA JUNIOR

E isso acontecia bem ali quando os olhos se fechavam
O anjo vagabundo avisava quando suas asas já balançavam:
Cuidado com a falta de ar, meninos e meninas!
Cuidado com a falta de vida que irão te oferecer em tantas esquinas!

Assim começava aquilo que fez do meu peito um sol de torrar ilusão
Aquilo que fez-me esquecer o caminho de volta ao chão
E foram tantos tombos
E foram tantos rombos nos bolsos de minha alma
Mas as moedas de luz brotavam feito gotas de chuva que desciam do meu céu

Havia eu
O réu maior do mundo
O pupilo febril daquele anjo vagabundo
Selvagem e sem dó
Derrubava as cercas do olhar do caduco vigia
As noites quando a Meira Junior engolia todos os lugares possíveis
O cheiro de papelão queimado
O silêncio desacanhado
A ciranda dos fantasmas:
Beto! Beto! Não esqueça da nossa história.
Não perca a doçura da fúria
Não endureça a alma como eles fazem sorrindo.

E foram tantos tombos
E foram tantos rombos no país dos meus olhos
Mas no jardim cresciam as minhas rosas
Que voavam como um presente
Sempre e sempre pra certa e futura pessoa errada

Havia eu
E um véu que cobria as perguntas
As placas
As faces ocas
Pare! Não ultrapasse!

O réu maior do mundo
O quintal fundo das minhas saudades
Onde diante da boca de concreto que vivia de mastigar idéias
Meu amor vinha
Com sua capa e sua insígnia
A lua
A rua onde eu esperava alguém me alcançar um dia.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

JOSEFA

Na grama que é feito um tapete
Ela leva suas crianças com cuidado
A tarde de sol e as noites de confete
A lua e nela o mundo todo pendurado

Na sala quando jaz o jantar estende
Ela tem na face os dias da enxada
E quem a desvenda não entende
A fundura dessa luz alienada

Quem sou eu então nesse conto que me acelera
Eu estava lá
E mesmo assim nunca estive a ponto de ver que ali estava dona tão rara

Quem seria eu sem a raspa desta estrela que me cuidava?
Me deu olhos pra ver além do breu
E disse:
Agora pegue o peito teu e me invente alguma palavra

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A VARANDA DAS ALMAS

Onde vai você com o meu sono?
Onde vai com teu cheiro de abandono?
Eu fico aqui
Tá tudo bem
Eu fico em ti pra ser tão triste como você é também...

Onde vai a vida com a gente por aí?
Onde vou eu pela rua se ainda nem saí?
Eu durmo em ti
Tá tudo bem
Eu te guardo daí de onde só as nossas almas se vêem...

Ali na varanda de luz
Onde os olhos falam e o peito traduz:

Desculpa, tá?
Desculpa tudo aquilo que eu nunca te falei

sexta-feira, 29 de abril de 2011

VENTANIA

Corria os olhos por toda a sala
Ela era a dona das suas coisas
A dona do mundo
Um mundo sem qualidades pois todas as qualidades nela se aglomeravam
Um mundo mole
Magma que ela moldava conforme a sua vontade
As suas verdades mais mentirosas

Eis que então
Um vento a desafiou
Um vento fora dos seus planos
Jogou o queixo à frente
E com as pernas e os braços pôs-se a correr pela casa até a janela
Escancarou-a como uma deusa em sua ira

Lá fora estava Ele
O vento que ia e vinha de todas as ruas
De todas as noites possíveis
De todas as magias improváveis
De todos os milagres inacreditáveis

O vento a conhecia em sua escureza de certezas confortáveis
O vento era seu dono sem usar de força
Sem apontar-lhe sequer o dedo
Feito um veneno irresistível
Feito aquilo que existe antes mesmo do mundo

Tinha nela carinho e revelia ao mesmo tempo
Brincava com ela
Fazia brotar dentro dela ressacas e calmarias
Revoluções e confrarias
E ela finalmente
Despida de imprestáveis qualidades
Viu-se mulher
Viu-se entregue
Viu-se minha
Visto que era eu quem sobrava aquela ventania

segunda-feira, 25 de abril de 2011

ENTENDE NADA

Não entende não é mesmo?
Teima em tentar me derrubar com tanta potência
Desmonta-me do que compreendem teus olhos
Tenta me ver por dentro
Tenta ver o que só a mim pertence
Não vê nada
Tens apenas os olhos da cara
Não tem os olhos do espírito
Não tens de mim nada
Rouba minhas lágrimas
Poupa meu riso no baú de tuas coisas?
Coisa pouca
Coisa nenhuma
Tritura meus sonhos
A música do meu peito
E mesmo antes do teu inverno
Do falso inverno da minha derrota
Do pó de minha alma me refaço todo
Feliz tolo e inteiramente novo
O mesmo
A mesma gargalhada inocente
Homem e criança
Pronto para inventar meu próprio mundo

Não entende não é mesmo?
Levanta a mão contra minha inquietude luminosa
Acorrenta a luz que meu olhar desbota
Tenta me apagar do mapa
Tenta apagar a minha voz levada
Não pode nada
Tens a força que nada move
Não tem a coragem da estrada
Não tem a minha estrada
Rouba meu afago
Amarra meu amor numa tempestade
Amor eu faço como bem entendo
Amor eu dou de graça
A qualquer hora
Você não entende mesmo nada

domingo, 24 de abril de 2011

A CHUVA DAS PRIMAVERAS

Algo me alcança sem que eu espere
Como algo novo numa manhã comum
A surpresa da chegada de alguém perdido
Esquecido entre os giros do ponteiro do relógio
O céu
Nublado mas feliz
Tanto faz a umidez da chuva leve
Jaz aquele daquele tempo
Aquela avenida
A grama do jardim dos fundos
Suada depois da madrugada
As nossas cabeças que voavam para outros continentes
Outros planetas, outras vidas
Gritávamos numa alegria
Enfeitávamos todo o mundo com nossas invisíveis alegorias
Um sinal! Um sinal e o farol todo absurdo
Quem vai dormir e qual será a casa de hoje?
Um filme, um livro
O baseado e a febril tosse
A total falta de vontade de qualquer posse fútil
Eis que tudo já havia e já habitava os nossos corações
Tão livres e loucos
Malucos de tudo
Incólumes de todas as bobagens da vida escravizada
Enquanto o mundo tentava nos abater com suas fornalhas
Com suas mãos de moer gente e fazer pedra
Em assalto roubávamos toda possível risada
Pois já era nossa antes mesmo de toda esta boba terra

Algo me alcança
Algo que habita a música de minha alma e que eu esqueci
Que despencava leve e potente com a chuva das primaveras
Algo que eu esqueci
Mas que hei de lembrar outra vez
Pra sempre

segunda-feira, 18 de abril de 2011

ROUPA

Tem pressa não meu coração
É tudo cena
Santo de barro
Loira morena
Box sem cigarro

Tem pressa não meu coração
É só teatro
Alma sem asa
Língua de metro
Rainha sem casa

Porta sem tranca
Tufão de nada
Verdade manca
Mentira pelada

Beijo sem língua
Bolso furado
Poço sem água
Riso forçado

É um banheiro sem fechadura
É desespero e ditadura

Rosto fechado
Peito escancarado

Fruta de cera
Olho de espera
É o que já é e o que já era
Já era e era
Era fundo azul
Chroma key
Venha aqui me dizer só a verdade que nos falta pra enfim tirarmos a nossa roupa