quarta-feira, 13 de julho de 2011

A CASA

Agora me debruço sobre isso que não entendo mas que me pertence
Esse tempo onde as flores movem seus pescoços procurando seu senhor
Esse templo onde as crianças correm enquanto dormem longe de seus monstros

No abandono das coisas
No telhado do corpo
Onde então a alma nos toma de nossa própria ignorância
Onde não nos machucam os mesquinhos olhos

A casa onde me abandono do meu pior
A pílula da boa ventura
A febre de um amor onde eu amanheço

E não se engane
Não tenho casa em bairro algum
Minha moradia é a brecha que descuidas nesse teu coração

Agora me livro da roupa de que se valem a canalha do salão
Essa luz que me mastiga sem que me tenha dor nem traição
Essa estrada que se estende para além do que conhece tua tosca imaginação

Na torre das ideias
Na lembrança dócil
Onde os fantasmas descansam ao som da nossa ressonância
Onde não nos alcançam as agudas mãos

O fim de tarde onde te descubro linda
O olhar que não se finge
O sexo do amor do qual me abasteço

E não se engane
Não pretendo contar o teu dinheiro
Guardo apenas o gemido dos teus gozos

terça-feira, 12 de julho de 2011

TROCA

Vendo minha vida por uma moeda pra quem puder pagar
Essa que é só minha de sentir
E tão boa pra essa gente bêbada cantar

Deixo tua tarde com o céu lilas
Cubro de ouro teu santo de barro
Calo as buzinas da Vinte e Três
Erguendo o vidro elétrico do teu carro

Pra que tudo seja lindo
Pra que tudo seja certo
Onde de tão verdadeiro meu amor eu findo
Onde enfim eu da tua vida parto

Vendo minha vida por uma moeda pra quem puder pagar
Essa que me guarda os olhos
E que me leva lá longe quando vou me deitar

Deixo teu corpo bem vestido
Tua paz em negrito num cardápio
Teu pescoço enfeitado
Escondo atrás da tua orelha todo o teu ópio

Deixo luzir a prataria da tua festa
Retoco o verniz do teu sorriso
Digo a eles quanto é que custa
O moroso brilho do teu piso

Pra que tudo seja belo
Pra que tudo seja fino
Onde de tão leve eu fujo do teu castelo
Onde eu sou aquele velho menino

Vendo minha vida por uma moeda pra quem puder pagar
Essa mesma moeda que entrego
E que ninguém sabe guardar

sábado, 9 de julho de 2011

MINHA MENINA DE CICUTA

Tem medo não que eu prometo não saber
Prometo não dizer uma verdade
Não tentar desvendar a idade do beijo que a gente libertou

Tem medo não que eu juro não contar
Juro não sonhar o que penso acordado
Não mostrar-me cativado com a língua que teus olhos falam

Na Santo Amaro os botecos bocejavam
As luzes se apagavam e eu nem era mais uma criatura humana
Era um monstro que enterrava os dentes nas tuas ideias
Devorava a tua respiração

Tem medo não que eu prometo não sorrir
Prometo pensar
Negar e negar
E negar
E botar minha vontade sacana pra dormir

Onde eu existia enquanto você sonhava?
Onde foi parar o mundo enquanto a gente se pegava?

quarta-feira, 6 de julho de 2011

ESPIADA

As bobagens despencam do céu
E a noite já nem mais é tua
Teu coração despido do véu
Tua feiura toda nua

Esfarelam sem apresso algum
As razões que você usou
Chovem sobre esse morto quintal
Onde eu arranco as pedras que aquela dor plantou

Que pena o medo teu
Que pena
Fiz uma novena e você nem notou
Levei teu coração pelo mundo
E só hoje você se tocou

Que pena
A verdade é o fundo do espelho que evitas exasperada
Um dia desses você há de dar uma espiada

domingo, 26 de junho de 2011

DE MOLHO


Entregue ao silêncio da casa
Você para as coisas à sua volta
O que jaz cativa hoje você solta
Arranca do peito aquela coisa

Entregue ao silêncio da casa
A tosse que rasga o escuro
A memória que derruba aquele muro
Os olhos onde tua saudade vaza

A voz não chega hoje... e ambos sabem
A mão não afaga hoje... e ambos sabem
Não há corpos sob as cobertas
Não há palavras sacanas
Só lembrança

Livre nesse trampolim onde na noite o teu olhar foge
Enquanto o mundo pergunta por você do lado de fora


quinta-feira, 2 de junho de 2011

UMA PRECE NO SILÊNCIO

Quando não te cabes aí dentro
Latente do fermento do universo
O sal do mar na narina
O ar puxado com calma
O sol de uma manhã serena
Perdida nas páginas do livro destes olhos

Quando não te cabes aí dentro
É que te aprontam mesquinhos desaforos
Os dedos rijos mirando teu rosto
O discurso do velho... do mesmo

O que sabem eles dentro de seus aquários?
O que sabem eles do teu oceano de sentimentos?
Tuas saudades abissais
Tua insistência diante da rocha
Corações de pedra
Emoções de vento

Quando não te cabes aí dentro
É que te cospem as cobras todo o veneno
Então aí é que tens que ter tua calma
Tua ciência desse escancarado segredo
Teu ouvido para o sussurro do tempo

Força
Força é o teu pensamento

quarta-feira, 25 de maio de 2011

DE GRAÇA

Deite teus olhos sobre a cidade
Da janela que te abre pra mim
Essa tua negada verdade
Essa ladainha que não tem mais fim

Quanto vale aquele papel?
Quanto vale o automóvel que vai?
O branco bordado de um véu
A solidão com gelo num hi-fi

O que sonha a alma e a gente não vê?
Quanto vale as bobas rimas que faço pra você?

Deite teus olhos sobre meu coração
Toda senhora em sua torre de cristal
Meu nome feito tua oração
Minha falta feito teu maior mal

Quanta foi aquele anel?
Quanto foi a lamborghini?
O mundo todo seu
O vazio e um dry martini

O que sonha a alma e a gente nem vê?
Quanto vale o pedaço meu que eu dou de graça pra você?

segunda-feira, 9 de maio de 2011

AS LUAS DA MEIRA JUNIOR

E isso acontecia bem ali quando os olhos se fechavam
O anjo vagabundo avisava quando suas asas já balançavam:
Cuidado com a falta de ar, meninos e meninas!
Cuidado com a falta de vida que irão te oferecer em tantas esquinas!

Assim começava aquilo que fez do meu peito um sol de torrar ilusão
Aquilo que fez-me esquecer o caminho de volta ao chão
E foram tantos tombos
E foram tantos rombos nos bolsos de minha alma
Mas as moedas de luz brotavam feito gotas de chuva que desciam do meu céu

Havia eu
O réu maior do mundo
O pupilo febril daquele anjo vagabundo
Selvagem e sem dó
Derrubava as cercas do olhar do caduco vigia
As noites quando a Meira Junior engolia todos os lugares possíveis
O cheiro de papelão queimado
O silêncio desacanhado
A ciranda dos fantasmas:
Beto! Beto! Não esqueça da nossa história.
Não perca a doçura da fúria
Não endureça a alma como eles fazem sorrindo.

E foram tantos tombos
E foram tantos rombos no país dos meus olhos
Mas no jardim cresciam as minhas rosas
Que voavam como um presente
Sempre e sempre pra certa e futura pessoa errada

Havia eu
E um véu que cobria as perguntas
As placas
As faces ocas
Pare! Não ultrapasse!

O réu maior do mundo
O quintal fundo das minhas saudades
Onde diante da boca de concreto que vivia de mastigar idéias
Meu amor vinha
Com sua capa e sua insígnia
A lua
A rua onde eu esperava alguém me alcançar um dia.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

JOSEFA

Na grama que é feito um tapete
Ela leva suas crianças com cuidado
A tarde de sol e as noites de confete
A lua e nela o mundo todo pendurado

Na sala quando jaz o jantar estende
Ela tem na face os dias da enxada
E quem a desvenda não entende
A fundura dessa luz alienada

Quem sou eu então nesse conto que me acelera
Eu estava lá
E mesmo assim nunca estive a ponto de ver que ali estava dona tão rara

Quem seria eu sem a raspa desta estrela que me cuidava?
Me deu olhos pra ver além do breu
E disse:
Agora pegue o peito teu e me invente alguma palavra

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A VARANDA DAS ALMAS

Onde vai você com o meu sono?
Onde vai com teu cheiro de abandono?
Eu fico aqui
Tá tudo bem
Eu fico em ti pra ser tão triste como você é também...

Onde vai a vida com a gente por aí?
Onde vou eu pela rua se ainda nem saí?
Eu durmo em ti
Tá tudo bem
Eu te guardo daí de onde só as nossas almas se vêem...

Ali na varanda de luz
Onde os olhos falam e o peito traduz:

Desculpa, tá?
Desculpa tudo aquilo que eu nunca te falei